domingo, 31 de agosto de 2014

A última noite no paraíso

A noite cai mais uma vez sobre esta pitoresca cidade. O sol dá lugar ao céu estrelado, a uma noite em que mais uma vez nós tentamos ser adolescentes inconsequentes. A noite é longa, e eu não esperava ver-te. Numa das minhas últimas noites neste bocado de paraíso que eu sempre reneguei.

É triste pensar no fim de algo, seja ele o final de uma relação, de um estado de espírito ou de uma simples garrafa de vodka. Tudo isto é triste, mas ver-te é mais. Não que eu te ame mais do jeito que já te amei, mas é como aquela tristeza de ver o teu brinquedo preferido de infância e apercebes-te que agora ele já pouco ou nada te diz.

E a noite avança, e eu penso em como é escasso o tempo que aqui me resta. E tu falas. Ris. Olhas para mim com aqueles olhos inocentes que já me prenderam. E eu perco, ganho, perco e volto a ganhar. Coragem? Esperança? Provavelmente todo este intercalar de ganhos e perdas deve-se a mais uma aposta imprevisível para ganhar mais uns trocos e dar mais algum sentido a um conhecimento que de útil pouco tem.

Mas olho para ti novamente e volto a ganhar e a perder. A perder o que já perdi uma vez. Mas entre a dor de ter perdido, nasce a dor de ter querido um dia ganhar...-te. Porque quanto mais falas, mais vejo o falso timbre da tua voz, tão falso como a suposta superioridade moral que um dia supôs que tinhas. Mas todas essas acções são esbatidas nesse quadro que és, pintado a cor beleza e retocado com olhar doce e meigo. Como é filha da puta a natureza e Deus por te por no meu destino!!

Destino... O meu está a desintegrar-se tal como o meu grupo de amigos, espalhados por esta estranha cidade a qual chamo de minha. E mesmo estando tanta gente aqui em volta que me conhece, todas me deixam ir embora para casa... Sozinho. Inconsequente. E a noite foi inconsequente, mesmo sendo a minha última no paraíso.