domingo, 8 de maio de 2016

5 da manhã e uma viagem no tempo

O quarto estava escuro, apenas iluminado pela luz emanada do seu computador. Lá fora começavam a cair as primeiras gotas de chuva do dia. Noite. Madrugada. Cerca de 5 da manhã e ele ali permanecia, em frente ao computador. Escrevia sobre amor, sobre ela. Uma rotina já normal para ele num sábado à noite assim que chegava de mais uma saída inconsequente. Do seu hálito transbordava vodka, whisky, cerveja. Qualquer bebida que contivesse álcool servia para ele naquelas noites. Naquelas noites em que ele não servia para ela.

No ecrã do computador crescia uma declaração do seu amor. Um texto nunca lido pela inspiração do mesmo. Este desapego não o demovia. Pelo contrário, ele lutava e continuava a insistir naquela história interrompida. Interrompida como a conversa séria entre ambos pela nova crush dela ou aquela curte atrás das oficinas da escola. 8 ou 80. Corda bamba. E mesmo assim ele não desistia.

Seria o álcool a falar, interrogava-se ele. Bem e sóbrio é que ele não estava. Mas continuava, escrevendo como se não houvesse amanhã. Como se ela fosse a única e mais bela mulher do mundo. Como se o amor fosse lindo.

O corpo dele foi sacudido por um forte arrepio, começando na nuca e vagueando por todo o seu corpo, petrificando-o. Frio. Corpo gelado e abandonado. Que óptima sensação para se ter numa noite de chuva, pensou ele. Mas depressa esse fio de pensamento desapareceu por mais uma onda arrepiante de frio. 

Depois de uma volta pela casa, o mistério era explicado por uma janela estranhamente aberta. O álcool não o fazia ver malícia na situação, fechando a origem dos seus problemas. Como seria fácil se tudo fosse tão fácil de resolver, pensou ele.

Voltou a sentar-se em frente daquele computador inundado de palavras sem sentido como o amor. "Porque amor não é lógico ou racional, é simples como um beijo e complexo como o cocktail de hormonas que é..." Escrevia ele, sendo interrompido por uma força a agarra-lo contra a parede fria do quarto. Ele resistia, tentava responder aquele ataque hediondo. Um rapaz um pouco mais alto do que ele empurrava-o contra a parede, esbofeteando-o e desferindo murros aleatórios contra ele. Ele resistia, tentava sair dali, gritar, fazê-lo parar. 

E de repente tudo parou, a pessoa agarrou-o pela cabeça e sussurrou " Calma, só quero falar contigo".

A voz calma e serena assustava-o. O amargo sabor do sangue na sua boca, despertava-o, mas o álcool fazia com que tudo parecesse mais lento, menos real, como um sonho. Até que finalmente disse algo.

-Quem és tu?- disse intrigado.
-Tanta ingenuidade, não me reconheces?- disse o misterioso rapaz, continuando- eu sou tu, o teu futuro.
-Porque o ataque? Porque as tantas cicatrizes na tua cara?- perguntou ingénuo
-Perguntas erradas, meu caro- respondeu sereno aquela personagem, continuando- vou te dar uns conselhos, ouve apenas- começando um monólogo.

"Pára de lhe escrever, ela não vale a pena. Na verdade nenhuma vai valer a pena. Esquece o amor. Só te fode. Esquece as surpresas românticas, os serões apaixonados e as noites calmas na cama com ela. Esquece-a. A ela. À próxima. E à outra futura também. Parabéns meu filho! Tu foste contemplado com a lotaria de o amor não é para ti. Esquece porque tu não te enquadras aqui. Já não se escreve. É antiquado. A nova demonstração de amor é um snap da tua pila e tu; tu não és assim. És o eterno nice guy. Aquele bom partido que as sogras veneram e as filhas desprezam. Mas tem calma. Tu vais crescer, deixar de ser assim. Vais deixar de sonhar. De querer algo grandioso. Vais te acomodar. Acabar assim.... Talvez... Talvez ainda haja solução para ti. Esquece o amor. Concentra-te nos estudos. Sê doutor como a família deseja. Não... Não... Sê piloto, abre as asas para ti. Eles recebem bem e sempre podias viver fora daqui. Podias ambicionar aquela casa na praia que agora desejas. Sem ela. Sim... Sem ela. Sem o amor da tua vida. O amor só te fode. Mas dude, a vida é assim... Ei, sempre terás os teus amigos. Aqueles amigos que agora fazem o secundário contigo. Sim, eles estarão lá sempre para ti! Ops... Menti, não queria ser assim. Queria te ajudar. Ajudar-nos. Fazer algo por ti... Olha o teu estado! Bêbado, acordado na madrugada. Vais parar de beber. Sim, tens de parar de beber! Agora senta-te e bebe mais um copo comigo para juntos descobrir-mos uma solução para ti. Ainda há futuro! Haverá futuro? Futuro para ti? Para mim? ... Como tenho saudades dela..."

E com a velocidade da sua chegada, desapareceu. Puf! Aquela pessoa. Ele, no futuro. Seria, interrogava-se ele. O misticismo permanecia no ar. Ele sentado no chão frio do quarto, com uma garrafa vazia ao seu lado. Ela não estava ali. O sangue que sentia na sua boca até então desaparecera. 

Aquele suspense desvaneceu, evaporado por uma nova luz no quarto. Esta vinha do seu telemóvel. Uma mensagem. No ecrã aparecia um texto. "Estás acordado? Estava a pensar em ti. Fiquei preocupada por ires embora assim. Quero te bem." O destinatário era a razão da sua insónia. Daqueles textos do início, lembram-se? 

E contra todas as expectativas, ele apenas apagou a mensagem. Ignorou-a. Era a vez de ser a ele a ir do 8 ao 80. Porque não podia responder. Porque tinha que mudar. Porque o amor.... O amor só te fode.  





quarta-feira, 16 de março de 2016

Viver uma mentira maravilhosa ou encarar a triste verdade...

*And no would be, oh, it's uncertain
Whether the curtain has shut for good
She says, "See if it's still raining
I'm not dressed for it and if you loved me"
And I interrupt to receive the scowl and stare
But still decided to stop her there*

A música entoava pelo carro, enquanto ele impaciente esperava. 
"Como é possível alguém demorar tanto?", pensava ele, abrindo mais uma vez o Instagram à espera de mais uma publicação da sua crush. Entre likes, miúdas em busca de aprovação e caras feias, o tempo de espera ficava mais suportável.

*knock knock* 

-Abre o carro!- diz Tomás com a respiração ofegante.
-Finalmente! És pior que as minhas ex´s- disse ele em tom irónico.
-Desculpa, sabes como é, tenho que ficar bonito- respondeu Tomás enquanto se sentava.
-Já há Photoshop para a vida real?- rindo-se, continuou- é que se não essa desculpa não cola.
-Que engraçadinho! Anda mas é lá com isso que já estamos atrasados- respondeu Tomás com cara de poucos amigos.

Poucos amigos de forma literal. Tomás era o seu melhor amigo e os dois eram das poucas amizades que o ensino superior e jovens licenciados bêbedos não tinham estragado.
"Amizades do secundário são para a vida." A maior mentira que nos contam no 12º ano. Se uma relação de namoro já é difícil de manter, imaginem uma de apenas amizade que não tem o incrível sexo de "eu estou cheio de saudades tuas".

-Isto é irónico- Disse ele a Tomás.
-O que parvo?- Respondeu ele, ainda ressentido das piadas ofensivas anteriores.
-Estarmos a ir para um jantar de aniversário de alguém que não vemos há meses- continuou pensativo
-É comida de borla e boa companhia, não tem como dar errado- disse rindo-se Tomás.

Chegados ao local, os "heróis" desta história depararam-se com a hercúlea tarefa de arranjar lugar no meio de tanto carro estacionado. Olharam para aquele amontoado de carros e depois entre si. Pensaram o mesmo "como é que estão aqui tantos carros?".
Saíram do carro, tentando-se arranjar e ficar com o melhor aspecto possível. Ele avançava, tentando pentear o cabelo com uma mão enquanto agarrava com a outra uma garrafa de Jack Daniel's.

-É mal empregue, disse Tomás, continuando- ainda vamos a tempo de acabar com ela os dois e irmos tentar comer algumas pegas numa festa qualquer.
-Cala-te mas é- respondeu, tentando ser sério e integro- Não deixa de ser tentador mas sabes que procuro mais.

-Oi, oi, estava a ver que nunca mais chegavam- disse Bruna, a namorada do aniversariante.
-Fogo, és tu que estás a receber as pessoas? Pensava que o João arranjava melhor para essa função- disse ele com o típico humor agressivo dele.
-Que parvo!- respondeu ela dando-lhe em simultâneo um murro no braço.

O "Momento Zero" da noite era finalmente alcançado. A partir daí, jantar, festa o que acontecesse era apenas consequência de decisões mal tomadas pelo nervosismo ou pelo excesso de álcool no organismo.
E logo ali começou a típica cisão de grupos dentro do grupo. Toda a gente a falar entre si e ele a tentar agradar a uma pequena plateia com humor auto-destrutivo ou de referência. Copo cheio, copo vazio. O ciclo de tentativa falhada de interacção humana tinha começado.
E continuava...

-E quem achas que ganha as primárias democratas?- perguntava Tiago, dos poucos que falava com ele de assuntos mais sérios, no meio daquela confusão
-Vai ser a Hilary. Vou me rir se os Estados Unidos elegerem uma presidente que tem mais enfeites que uma árvore de Natal.- disse ele rindo-se
-Enfeites? Não percebi.- perguntava uma das caras novas naquele jantar.

"Que boner killer. É tão triste ver uma rapariga tão bonita estragar tudo quando abre a boca"- pensou ele acenando a cabeça em sinal de reprovação.
Chamava-se Maura. Ou era Maria. O nome estava confuso. A conversa com Tiago e o álcool ganharam sobre a sua apresentação tímida. Coitada.

-Cláudia, chega aqui!- gritou ela virando-se em direcção a uma rapariga morena bem bonitinha.
-Diz oh pega- disse ela aproximando-se do grupo sorrindo.
-Conta-lhe a piada! Já que nenhum dos dois me explica, explica ela.- retorquiu a rapariga estúpida.
-Bem, eu e o Tiago estávamos a falar das primárias dos democratas, e eu disse que seria estranho no final de tudo ver uma presidente com mais enfeites que uma árvore de natal.- disse ele de forma calma e meio desinteressada.
-E que tem que bater as portas sempre para dar tempo para o Bill subir as calças antes dela entrar- respondeu Cláudia rindo-se como se não houvesse amanhã.

"Fuck", pensava ele enquanto se ria da piada. Como é estranho hoje em dia ver uma cara bonita que além de inteligente tem bom sentido de humor.
E como é óbvio, o teste teria que ser feito, e conversas fluíram tão rápido como garrafas de vinho e sangria.

O jantar chegará finalmente ao fim. E o after dinner era feito com mais bebida, doces e conversas desconexas e sem sentido por toda a casa. E de entre tantos grupos formados, ele pensava em como estava interessante a sua conversa com Cláudia. E entre assuntos sérios e outros tabu, o humor dos dois e a química existentes faziam com que o interesse dele aumentasse.
E como isso hoje em dia era raro. Raro demais. Crush físicas são inevitáveis para o ser humano, mas aquilo... Aquilo era química de mentes semelhantes. Amor intelectual e espiritual. E isso, isso não se pode fingir. Ou ignorar.

-E então, como é que alguém como tu, está nesta terrinha como esta?- perguntou ela, com um olhar intrigado.
-Uma série de más decisões e demasiadas garrafas de vodka vazias.- respondeu ele, num momento de rara sensibilidade, continuando- Nem todos podem viver na capital e ter projectos de ir para Londres continuar os estudos.
-Tu podias. É estranho mas acho que és mais do que tu pensas que és. Porque te prendes tanto aqui?- retorquiu Cláudia pensativa, olhando-o nos olhos.
-Nem eu sei...- disse, olhando para o fundo de mais um copo vazio.

Do after dinner, para a party. O roteiro contava com a visita a mais uma festa temática de uma discoteca de sucesso por ser a única de qualidade da região.
E ele pensava em como era tão melhor continuar simplesmente a falar com ela. 

A noite avançara. Os casais dançavam as músicas de kizomba agarrados, numa imagem perto o suficiente de soft porn para adolecentes. Os desesperados e desesperadas agarravam-se à esperança de naquela noite poderem finalmente não estar sozinhos. Os calmos bebiam, olhavam e pensavam na vida. Ele era um dos últimos.
Entre copos vazios e pensamentos distantes ele pensava em como ela era bonita. 

"Que sentimento estranho que ela faz-me ter."- Pensou ele, enquanto cravava mais um cigarro a Tiago e a Tomás.

E de lá saiu em direcção à varanda daquela discoteca barulhenta. Seguido em segredo.

-Porque vieste para aqui?- perguntou Cláudia, interrompendo-o na árdua tarefa para um bebedo de acender um cigarro.
-Precisava de ar fresco.- respondeu ele pensativo.
-Anda dançar comigo. Faz te bem espairecer.- insistiu ela
-Talvez depois.- disse ele entre os primeiros bafos num cigarro de marca desconhecida para ele.
-A sério, porque te prendes tanto?- perguntou-lhe Cláudia, agarrando-lhe a mão direita.

Silêncio. A resposta estava entalada na garganta. E ele apenas conseguia olhar nos olhos dela, como se nada mais houvesse no mundo. E de repente, os olhares passaram a ter outros alvos. E quanto mais ele olhava para ela e para a sua boca, mais o silêncio era interrompido. 
Tambores. O característico rufo dos tambores que na tua cabeça fazem a banda sonora perfeita para o que tu pensas ser o pré-beijo. E como esse rufar estava ensurdecedor. As caras dos dois aproximavam-se lentamente. E os olhos devagar se iam fechando, como assim deve ser no primeiro beijo. 
E como era bom beijar alguém, não por pura atracção física mas por algo mais, por atracção mental e espiritual.
Depois do beijo, os sorrisos. O sorriso. Porque o dele depressa desaparecera.

-Que foi?- perguntou ela, fazendo-lhe uma carícia no rosto.
-Isto é tão injusto.- respondeu ele com um olhar triste.
-Porque?- disse ele olhando nos olhos, tentando-o confortar.
-Fomos tramados pelo timing- respondeu ele continuando- pensa bem no que vai ser daqui para a frente.
-Que tem? Não quero fazer planos, quero aproveitar o momento, estar contigo agora e enquanto sentir estas borboletas na barriga de ter encontrado alguém tão fantástico como tu.
-Nós temos prazo de validade. Quando fores embora para Londres irá tudo acabar- disse ele ingrato com a vida
-As relações à distância resultam- disse ela dando-lhe um beijo na boca- além do mais não vamos fazer planos, apenas viver o presente.

Mais um beijo na boca. Uma mão no pescoço. Corpos juntos, no calor do momento. O "aproveitar o momento" é um sinónimo para algo que o horário nobre não contempla. Ambos sabiam. Afinal eles não eram assim tão diferentes.
A noite avançou. O relógio parecia não mais parar. Da discoteca à casa dela num piscar de olhos. E de olhos bem abertos e vidrados nas sombras do seu quarto, era possível contemplar a poesia humana de duas mentes em sintonia.

No final, mimos e carícias que indicam que o desejo sexual é expandido ao desejo mental e sentimental.

-Que vamos fazer?- disse ele.
-Queres finalmente fazer à missionário é?- disse ela em tom irónico
-Sabes bem do que falo- disse ele tentando não se rir de mais uma deixa que podia ser sua.
-Logo se verá... A distância não é tudo. Podemos ultrapassar tudo- continuou Cláudia com uma mão no rosto dele.
-Não é tudo mas irá atrapalhar tudo. Momentos como este serão complicados.- retorquiu ele triste.
-Cibersex, sexting, o que lhe quiseres chamar... Os dois temos imaginação a mais, damos a volta a tudo.- disse-lhe sorrindo
-O teu corpo é lindo demais para ser arruinado por fraca iluminação e má banda larga.- disse ele, beijando-a na testa

Ela apenas riu da piada. Deitou a cabeça no peito dele, tentando não pensar em tudo aquilo. Ela sabia que ele tinha razão. Ele sabia. Os dois apenas teriam que escolher entre viver uma mentira maravilhosa ou encarar a triste verdade. Porque o amor não é apenas conexões mentais e físicas. Também é timing. E timing, meus amigos, é um dos maiores assassinos das histórias de amor.

domingo, 6 de março de 2016

Amor é muito mais complicado que isto

Lá estava ela. No meio da pista a dançar a dançar um featuring qualquer de duas estrelas decadentes em busca de redenção. 

"Pelo menos não é kizomba"- pensa ele com um copo de vodka na mão, como se de um deslocado na sua geração se tratasse.

Ela? Ela continuava a dançar, como se não notasse ou apreciasse o meu olhar vidrado na sua doce criatura. Raparigas assim adoram atenção. Quando uma morena baixinha com traços de perfeição no corpo aparece, ela automaticamente se torna o centro das atenções. E nós, homens no geral, alimentamos o ego destas donzelas que constantemente nos metem em perigo.

"Mas que perigo?" - pensou ele, com um cigarro na boca e à procura do isqueiro.

O perigo de ficar apaixonado. O perigo de aquela pessoa nos arrebatar o coração e fazer com que nós percamos todo o nosso QI, todo o controlo sobre as nossas acções. Amor. Amor é a pior de todas as doenças.
Mas ela... Ela continuava ignorando-o como se não soubesse o jogo sádico que se estava a passar. O ego aumentava enquanto a atenção dele se transformava em obsessão. 

-Ela é perfeita... É mesmo o meu tipo... Fuck. - disse ele, sem se aperceber que o bartender o tinha ouvido.
- Já não é o primeiro a dizer isso dela hoje. - respondeu o bartender, continuando- Sabe, com raparigas como ela tem que se ter cuidado. Um dia estamos lúcidos, no outro sem noção de quem somos sequer. 

Ele acenou a cabeça ao bartender, em sinal de aprovação, quando na verdade apenas tinha ignorado aquele comentário. 
Ela estava agora sentada, virada de frente para ele. Tinham a pista a separá-los e o jogo de olhares a junta-los. Já não havia censura ou tentativa de camuflar o incamuflável. Eles estavam no primeiro, e mais sincero, sinal de flerte: os olhares. No olhar consegues ver o desejo, a curiosidade, o mistério de quem quer desvendar a tua alma e despir a tua personagem.
Entre olhares, sorrisos. 

"-Fuck... Como o sorriso dela é bonito!"- pensou ele, enquanto tentava juntar todos os seus pedaços de antigos desgostos amorosos para ter a coragem necessária para a primeira abordagem.

E quase em piloto automático, lá saiu ele em direcção à musa que o tinha cativado. Podiamos reproduzir o diálogo, mas todos nós sabemos em como tudo é bonito e cativante no inicio. Em como tudo é coincidências, e em como tudo é sinal para aspirar à história de amor perfeita.

E de entre sorrisos e confidências veio o primeiro beijo. E o segundo. E o terceiro. E de repente as suas mãos estavam a apertar o corpo dela contra o seu. Mão na nuca enquanto a beija com desejo. Aquela mordedela no lábio durante beijos, que a deixa louca. A mão que suavemente desce as costas e acaba por apalpar o rabo a que ele tinha deitado o olho durante a noite. E os beijos continuam, a vontade aumenta, e sair dali é a única solução.
Flashs... Desde a saída da discoteca, à casa dela... Ao quarto dela, tudo foi rápido e efémero. O desejo aumentava, as roupas diminuíam, numa conta em que apenas dois corpos nus podiam concluir. E o desejo aumentou tanto como os decibéis feitos dentro daquelas quatro paredes.
E no fim de tudo, a conchinha e os mimos de quem pensa ser o destino a funcionar levam ao sono.

Que bela histór...

*Ele levantasse da cama sem fazer barulho*

"-Que estás a fazer?
-O mais óbvio e maduro.- responde ele, numa conversa mental com a sua consciência/narrador.
-Mas isto pode ser o inicio de uma história de amor tão bonita. Fica!
-Amor? Quem falou em amor? Isto sempre se baseou numa crush, em interesse e química física. Porque isto é simples... Conexões mentais e amor é muito mais complicado que isto..." - respondeu ele, fechando a porta do quarto devagar. 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Duas histórias de amor não são melhores que uma

" A vida é uma merda"- diz ele enquanto olha para mais uma garrafa vazia de vodka.

Cliché, pensou ele. Mais uma história envolta em álcool  e nostalgia. 2 anos. 5 meses. 7 semanas. 3 dias. Não interessa quanto tempo andas para trás nesta história. Ela é igual e cíclica. Existe um rapaz que está triste. Desiludido com a vida, com tudo e todos. Com quem o abandonou. Com quem já não está cá. Com ele por a ter deixado fugir-lhe "entre os dedos".

Ele apenas olhava fixamente para a tele em branco do computador. Estava, segundo o termo técnico, em Bloqueio Criativo. Ele sabia que era muito mais profundo do que isso. Um escritor vive da escrita. E ele não escrevia há semanas. Meses. Anos. 

-Pode estar de coração destroçado e consequentemente sem ideias ou motivação. - diz o leitor mais romântico deste texto.
-Se calhar é pura e simplesmente falta de talento! - pensa aquela pessoa mais agressiva e amarga.

Ele ia se identificar muito mais com a segunda visão. Uma visão mais amarga da situação, do mundo. Ele poderia utilizar uma metáfora significativa sobre as cores, e como esta visão amarga poderia ser uma "visão a preto e branco". Mas não. Preto e branco é filtro do Instagram que torna tudo mais romântico. Trás aquela simbologia que todos nós sabemos, a simbologia das histórias de amor em preto e branco, das histórias que nos impingiram para termos a ilusão de que amor é felicidade.

-Amor?!? Amor é a maior filha da putice que existe!- gritou ele enquanto varria a mesa com o seu braço direito pondo tudo em queda livre em direcção ao chão.

Se isto fosse um filme ficaria bem uma acção em slowmotion dos objectos a se partirem no chão. Um momento Kodak da coisa. 

Oh se ficava bem!- pensou ele continuando com aquele olhar petrificado para a confusão que tinha criado. 

Para uma pessoa confusa, a confusão por si só tem um certo romantismo no olhar. E porra, como ele era romântico e adorava a ideia de se apaixonar pelo que imaginava ser a situação. 

-Julgava que era amor... Que ela era a tal.... Imaginei-nos mais velhos, com 2 filhos criados, uma casa na cidade e outra à beira-mar.... Imaginei- falou entre bafos de cigarro, com um tom nostálgico e triste como se de uma balada de amor de Arctic Monkeys se tratasse. 
-Do início claro. Do teenager Alex Turner, quando tudo era mais verdadeiro e sem o intuito de agradar a massas- disse ele enquanto olhava para o maço de tabaco- No início é tudo assim: mais verdadeiro, mais real; mais sentido. 

Ele contava mentalmente os cigarros que faltavam para acabar o maço. Pensava se chegariam para mais uma noite de solidão e nostálgia. Eram 3 da manhã e a sua tentação não era unica e exclusivamente o tabaco e o álcool. Telemóvel com um numero dos contactos aberto. "Raquel <3", e a foto de uma morena baixinha preenchiam a tela do smartphone.

-Aquele coração é meio estúpido- pensam vocês.
-E o amor não é isso? Estupidez em estado pura, ter aqueles comportamentos que julgavas nunca ter apenas porque a pessoa te fode tanto com o psicológico como fode o teu corpo. Isso é amor! Uma foda psicológica total, um estado mental de loucura que de saudável pouco tem. - responde ele olhando para o infinito, como se soubesse que aquela triste história está a ser relatada.

Como seria bom acabar esta história com uma frase romântica e filosófica do protagonista. Valorando a sua personalidade, o seu intelecto. Dando uma conotação de herói e simpatia dos leitores para com o protagonista da história. Mas a vida real não é assim....

*chamada de telemóvel*

-Estou... quem fala?- pergunta uma voz doce e afável.
-Como é que me esqueceste tão rápido?- disse ele após alguns segundos de silêncio e contemplação da sua voz.
-Filipe, és tu?? Como é que tens este número?!?! Já te disse para parares de me ligares...- gritou ela furiosa
-Calma... Isso não importa... Só te queria dizer uma coisa... - disse ele serenamente
-Tornas a minha vida um inferno, não falas durante mais de um ano e agora ligas me a quase às 4 da manhã?!? Estás maluco?- continuou ela protestando
-Já fui maluco... Maluco por ti. Melhor pela imagem que tinha de ti... Agora não. Estou apenas bêbedo, a pensar no quanto me fodeste a vida sua puta de merda!- começou ele aumentando o tom de voz- Como foi possível fazeres me aquilo? O João era meu amigo caralho!- gritou ele.
-Filipe, que se pass... - dizia ela até ser interrompida de novo
-Filipe o caralho! Tu sua grandíssima puta, encornaste-me com um dos meus amigos e eu passei anos a tentar perceber onde errei para te perder! E afinal hoje percebi que não passas de um bocado de merda e que o erro foi teu...
*som de choro do outro lado da linha*
-E não chores sua puta! não é isso que vai reunir a minha simpatia- disse confiante
-Filipe estou preocupada contigo! Onde estás? Queres que vá ter contigo?- perguntou ela aflita entre sons de choro.
-Como assim estás preocupada? Agora é que estás preocupada comigo sua cabra!- disse furioso
- Filipe... Tu não estás bem... Isso não aconteceu comigo... Aconteceu entre ti e a Sofia. Tu nunca superas-te isso na altura e ainda não o superas-te. Eu tentei-te perdoar por isso mas não consegui Filipe. Eu amava-te demais mas tudo o que via quando olhava para ti era vocês os dois. Eu tentei... Mas tu tens um problema grave Filipe. Amaste a pessoa errada demais... Mais do que alguma vez me amaste.
-O que?- disse ele confuso- Que estás a dizer? Estou maluco?
- Onde estás tou preocupad... 

*fim de chamada*      

Ele desligou a chamada confuso. 

-Estarei maluco?- pensou ele. 

Não, não é possível. Aquilo tem de ser mentira. TEM QUE SER MENTIRA!- gritou mandando o telemóvel contra a parede.
Oh como é bonita a confusão. Tecnologia despedaçada no chão da sala por uma força humana desumana. Ele apenas olhava para mais um momento de confusão e devaneio pessoal, enquanto sentado no chão, as lágrimas começavam a cair. Fechou os olhos. 
Flashbacks momentâneos dos prazeres de outra altura. A história mesmo fragmentada fazia sentido. A da Raquel. Não a dele. 

-Estarei maluco?- disse ele.
-Não, não estás maluco- respondeu ele próprio, continuando- ela tem razão, mas o ser humano camuflua os seus erros reprimindo-os. Para ti, tu serás sempre boa pessoa. Para ti serás sempre o nice guy.
-Mas não o sou. Magoei quem mais me amava.
-E as pessoas antes não te magoaram? Tens desculpa, foderam-te à grande antes, podes ser assim agora. És traumatizado. Foste a vítima. E os bons rapazes também erram Filipe.
-Não! Eu estraguei tudo! Não sou boa pessoa- disse ele abrindo a janela da varanda.
-Que estás a fazer? - disse ele a ele próprio
-Estou a corrigir tudo... - sussurrou como se de uma confissão se tratasse, saltando de imediato do 8º andar

Cliché. Pensou ele nos últimos instantes. O suicídio de um jovem escritor promissor. O triste fim para mais uma história de amor.

"História triste" diz o leitor. Mas meu caro leitor, não há espaço para um final feliz nas histórias de amor... 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Quando acabará a nostalgia e começará o regresso a felicidade?

4 da manhã. O frio na nuca gela-o. Ele dá mais um bafo no cigarro e olha para a garrafa quase vazia de vodka.O olhar no horizonte, como se dali pudessem vir todas as respostas para os seus problemas. 
Apesar de estar sentado na escadaria da velha biblioteca da cidade, ele sentia-se mais inculto que nunca. Confuso. Disperso.

Olhos fechados, e memória a trabalhar:

"-Anda deixa de ser preguiçoso! - disse ela, enquanto se acabava de arranjar.
-Não é preguiça... Apenas podíamos ficar por casa a ver um filme e a fazer algo mais interessante- retorquiu ele abraçando-a pelas costas e dando-lhe um beijo no pescoço.
-Não, nem pensar que o menino pensa que se escapa assim... Vamos sair, estar com os nossos amigos, eles vieram de propósito por .... - dizia ela sendo interrompida por ele que num gesto repentino a pegou ao colo não a deixando acabar a frase.
-Larga-me! Isso é jogo baixo- gritou ela enquanto era atirada para a cama.
-EU... É ... QUE...MANDO...- disse ele interrompendo a frase para a beijar na boca..."

Mais um golo naquele bebida fria. Mais um golo para esquecer. Esquecer o que a vida lhe levou, ao que perdeu, ao que desperdiçou. Definitivamente ele não era um bêbedo feliz naquele momento. Há muito que não o era. Entre bafos de cigarro, assentia com a cabeça em sinal de negação. Com um suspiro escapou-lhe um "como é que fodi isto tudo?".

"-Para que?!?- gritou ela visivelmente enervada, continuando- Para mais uma vez não dares valor às nossas amizades? Dizeres que eles são isto e aquilo?- atirou a mala dela para cima da mesa da sala.
-Amor, só disse o que acho. Eles são um bando de snobs preocupados com aspectos de trintões que ainda não são. Porque me devem eles julgar se sou feliz assim? Feliz contigo e fazendo o que gosto?- respondeu ele, tentando-a acalmar.
-Tu simplesmente gozaste com eles. És um gozão, sabes disso e não te preocupas-te com o que eles pensariam disso!- disse ela descalçando os saltos altos que ele lhe oferecera nos anos.
-Sabes como eu sou, porra! Não vou mudar para agradar aos teus amigos!- gritou ele sendo de imediato interrompido.
-Nossos! Nossos amigos... Ou esqueceste-te de tudo o que passamos juntos no secundário com eles?- interrogou-o com um olhar reprovador.
-Não me fodas... Se eles fossem nossos amigos mesmo, não nos víamos de 3 em 3 meses e não falávamos de coisas aleatórias e não tentavam constantemente vangloriar-se.- disse ele enervado."

Discussões parvas, desabafou ele, acabando finalmente a garrafa de vodka. Preocupei-me demais com quem não devia, e acabei por perder tudo...- continuou ele na saga de tristeza e deprimência.

E ficou novamente a olhar fixamente o horizonte, tentando perceber como dar a volta a tudo. Dar a volta estando na mesma cidade e sem tudo o que um dia teve. 
Mais um cigarro aceso, mais uma memória torturante. Quando acabará a nostalgia e começará o regresso a felicidade?