sexta-feira, 28 de março de 2014

Um traição ou um novo início




O sol de primavera encadeava-o. Meia tarde, e ele sentado numa esplanada à espera. Num olhar feito de fora, aquela era mais uma espera como tantas outras. Um encontro que está a ser posto em causa na cabeça dele, por causa de tanto atraso. No entanto na cabeça nada disso passava. E de um encontro nada teria. Ele esperava uma amiga sua, amiga desde o secundário. Nada demais se passava entre eles sem ser amizade. Tanto ele como ela se aconselhavam por entre encontros e desencontros amorosos. Ele tentava se lembrar de quantas vezes ela já o avisara, de quantas vezes ela esteve certa sobre ele vir a sair magoado, que a rapariga em questão não era certa. Na verdade, ele estava feliz por aquela amizade resistir, já que tantas não resistiram.

Ela chegou. Mais uma vez de um olhar de fora ela era uma mulher perfeita para com quem muitos teriam um encontro. Alta, esbelta, com aquele brilho no olhar, cabelo preto até a meio das costas, curvas pelas quais já muito se apaixonaram. Ele, não se surpreendia de ela ter namorado, de ser feliz ao lado de alguém. E ela merecia isso. Para ele, ela não era apenas beleza, era personalidade e caracter forte num corpo de mulher.

Ela sentou-se e um simples café transformou-se em conversa. Falaram de tudo. Falaram dele, dos seus objectivos, de nunca esmorecer que um dia ia dar tudo certo. De como estava a vida dela, o trabalho, a promoção que ela iria ter.

Tudo estava a correr bem, até que se tocou na relação dela com o namorado. Ela pareceu estranha. Ele sabia que ela estava estranha, ele conhecia bem.

Ela pediu-lhe boleia para casa. Ele acenou a cabeça firmemente. Sabia que se ela não queria falar, o melhor seria não tocar no assunto. Entraram no carro. As conversas que podiam durar horas transformaram-se num silêncio sepulcral. Ele sentindo-se constrangido, fez uma piada sobre uma coisa qualquer, como era seu habito sempre que sentia alguém em baixo. Ela soltou um sorriso nervoso.

Chegaram em frente a casa dela, já era noite. Ele parou o carro, olhando para ela. E ela, olhava para ele. O olhar dela tinha perdido o brilho cativante que parecia sempre ter. Eles simplesmente ficaram naquela troca de olhares, sem trocar uma palavra por minutos. Existem momentos na vida em que o silencio fala mais por nós do que as nossas próprias palavras. E se dela vinha um olhar pesado e triste, dele vinha um olhar de compaixão e apoio. E de repente o silêncio foi cortado:

-Ele traiu-me.- Disse ela começando a chorar.

-O meu namorado traiu-me. Eu sei que sim, mais que uma vez.- Disse ela com a voz embargada, no meio do choro. 

Ele não conseguia responder. Ficara imobilizado como tanta vez o fica quando uma rapariga bonita chora ao pé dele. Ele não sabia o que fazer, apenas olhou para ela com um olhar pesado.

-Uma amiga minha viu agarrado a outra. E agora sei, que ele me trai.- continuou ela.

Ele agarrou na cabeça dela com carinho. Com os dedos limpou as lágrimas que lhe desciam pelo seu rosto e disse:

- Não sei o que esse rapaz tem na cabeça mas não te merece de maneira nenhuma. Tem a perfeição em casa, e sai com outras? Ele não sabe a sorte que tem. Tu és bonita, simpática e atraente. Tens uma personalidade espectacular como hoje já não se vê, tens um caracter e uma força inesgotáveis. E se ele não vê isso é porque é cego. Tu és tudo o que um homem pode querer, e eu não preciso de conhecer as pegas com quem ele se dá para saber que és melhor em todos os aspectos. Tu és perfe…

Nesse mesmo instante ele foi interrompido com um beijo dela. Sentir os seus lábios nos dele o fez derreter. Sucumbir a um desejo que ele nunca tivera, beijá-la. Eles pararam de se beijar, olharam um para o outro, mas aquele desejo era mais forte. Os beijos continuaram. Ela tirou-lhe o casaco. Ele tirou o dela. As mãos dele percorriam-lhe o corpo, desejando o que nunca desejou. As mãos frias dela no pescoço dele faziam o arrepiar. Arrepios, sentia ela, sempre que os lábios dele encontravam o seu pescoço.

A roupa foi sumindo à medida que o desejo subia. Ele não estava racional ou consciente. O desejo era crescente, incontrolável. Ele não sabia como era possível ou concebível ter tanto desejo por alguém por quem sempre sentiu apenas amizade.

            Pensamento interrompido pelas unhas dela nas suas costas. As suas mãos desapertavam o soutien, a boca desceu beijando-lhe o peito agora nu. Ele rapidamente puxou o seu banco todo para trás, com a mesma força com que a seguir a puxou para o seu colo. Sentiu as mãos delas a despertarem as calças, instintivamente ele fez o mesmo a ela. Calças fora, num carro preenchido pelos seus corpos e as suas roupas espalhadas. Ele beijou-a mordendo-lhe o lábio, agarrando-lhe suavemente o pescoço. Olharam nos olhos um do outro. O desejo espelhado naqueles olhos castanhos deixavam-no fora de si. E com a mesma velocidade com que já toda a roupa tinha sida tirada, as ultima peças também o foram.

Corpo com corpo, aquele desejo incontrolável. Vidros embaciados, numa aventura em que nenhum dos dois tinha pensado. Os olhares trocados, os gemidos feitos como sussurros ao ouvido. E no fim, tudo isto era uma traição. Ela sabia-o, ele também. No entanto, não era o sentimento de culpa que invadia o olhar de ambos. Naquele olhar residia o desejo… e a esperança num futuro que poderia ser escrito a dois…

quarta-feira, 19 de março de 2014

Tentação e a realidade




Sentado na secretária, no final de mais um dia. Computador em frente, telemóvel do lado esquerdo. Bate aquela vontade de mandar mensagem aquela pessoa especial que já não o é, apenas para saber se ela está bem, se é feliz sem mim. Resisto á tentação de revisitar esse passado distante e inóspito. 

Abro separadores de forma aleatória. Tudo o que é rede social é ligado. Uma maneira de me refugiar da tentação. Conversações fazem-me parecer menos distante, mais humano, mais social. No fundo todos nós gostamos de viver agarrados á ideia que vamos ter sempre algo especial, seja amor ou amizade, que vamos ser alguém que faça a diferença neste mundo cheio de clones. 

No meio disto tudo vejo o que mais me choca nesta sociedade. As atitudes de hoje em dia, os valores, tudo anda trocado, despegado do seu verdadeiro valor. Vivemos numa sociedade em que estamos todos tão desesperados para sentirmos algo, qualquer coisa, que batemos uns nos outros, despegados de emoção, que fazemos de tudo para nos sentirmos especiais. Valores são quebrados, atitudes repercutidas, e a sociedade entra em declínio.

Fecho os separadores todos, mando lhe mensagem e desligo o telemóvel. Saiu à rua em direcção da casa de uns amigos. A tentação não pode ser combatida, mas tudo passa quando sais do teu pequeno mundo, e vives no verdadeiro.

Destino... Em universos parelelos




O convite chegou por mensagem. Sair á noite era o plano de um amigo meu. Um plano que envolvia um grupo misto de amigos meus com desconhecidos. Dei a confirmação, e desliguei o telemóvel. Estava cansado do trabalho, precisava de descansar e não ser incomodado, mas se não ia ao Urban, o melhor era sair para não pensar nisso. 

As noites de sábado já não tinham o encanto de outros tempos. Já não havia aquele entusiasmo, já não me divertia. O meu grupo de amigos estava partido, diluído num novo mar de expectativas e conecções impostas pela universidade. Gostava de voltar a ter uma daquelas noites em que todos nós falávamos por horas, ríamo-nos da nossa estupidez, e aumentávamos o número de histórias que temos para contar aos nossos futuros filhos e netos.

Acordei sobressaltado. Já era de noite, simplesmente adormeci no meio de tanto pensamento confuso. Despachei-me o mais rápido possível. Entre banho, jantar e arranjar-me passou uma hora. O telemóvel tocava. Estava atrasado, e um dos meus poucos amigos que sentia a minha falta fez-me apressar. 

Cheguei ao local combinado. Logo ali senti a nostalgia. O grupo estava dispersado. Um olhar mais imparcial, via vários grupos e não apenas um. Logo pararam a minha bad trip, dois amigos meus chegaram ao pé de mim com uma garrafa de vodka. Falamos, bebemos mas logo notei em algumas caras novas ali por perto. Um deles, disse-me que tinha sido ele a convida-la, que era o seu novo interesse. Naquele momento senti aquele sentimento de alegria, aquele sentimento que todos os amigos sentem quando um amigo se está a dar bem no campo amoroso. 

A noite ia passando rápido, com a mesma rapidez com que eu fazia desaparecer copos, e ajudava a raptar garrafas. Entramos num bar. As paredes podiam ser azuis, verdes ou cor-de-rosa, naquele estado já não reparo nisso. Reparo sim que o nosso grupo é muito mais pequeno do que no início. Éramos poucos mas bons dizia eu, enquanto reparei que estava a ser observado. Era aquela rapariga nova. Olhava para mim sem disfarçar. Eu não sabia muito bem o que fazer. Virei costas e comecei a dançar de frente para uns amigos meus. Passaram segundos, minutos ou horas. Bêbedo, o tempo é tão efémero como os copos que já morreram nas minhas mãos.

Olho em redor e não vejo muita gente do grupo. Olho para fora do bar vejo dois amigos a conversarem. Infelizmente, não vejo um deles acompanhados pela rapariga nova. Volto a concentrar me no bar, estou de copo vazio. Quando ia a dirigir me para o balcão, senti uma mão nas costas a puxar-me. Olho e era ela. Aquela rapariga. Ela chegou-se ao pé de mim e sussurrou-me “não me deixes aqui sozinha”. A voz dela era doce, e eu não sabia bem que fazer. Devia ir chamar o meu amigo, mas por outro lado não havia mal em fazer lhe companhia.

Aquele momento de silêncio constrangedor foi rapidamente quebrado quando começamos a dançar. A distância entre nós ia diminuindo, e começava a sentir o corpo dela junto do meu. De forma errada começava a pensar no que não devia. O álcool, aquele toque, faziam-me esquecer o pensamento. As minhas mãos começaram a descer, agarrei-a pela cintura. E dai para a frente só me lembro de cada vez estarmos mais próximos de um canto. De nos beijarmos, de percorrer o corpo dela com as minhas mãos. Os arrepios que ela sentia quando a beijava no pescoço, os que eu sentia quando ela me arranhava as costas. 

De repente tudo parou. Olhei para ela, olhar vidrado. Segui o seu olhar, e vi o meu amigo a chorar. Ao seu lado um amigo comum a olhar em sinal de reprovação. Ele saiu sem dizer nada. Corri para fora do bar, desesperado para o tentar alcançar. Corria com afinco, não sentia o cansaço, nem o álcool dentro de mim. Ele simplesmente desapareceu. Andei pela cidade sem rumo. A pensar em toda a porcaria que fiz. Sentia me fraco, desiludido e sem forças para lutar. Magoei quem nunca quis magoar. Sentei-me numa ponte sobre o pequeno rio, a pensar no que fiz. E o meu pensamento estava cada vez mais confuso. Desisti de me equilibrar, deixei-me cair exausto de tanto lutar. Senti a água gélida a bater no meu corpo. Só pensava porque é que não sai para o Urban com os rapazes.




A noite ainda era uma criança, e nós já andávamos sem rumo de garrafa na mão. Percorremos todos os bares daquela zona, mas nenhum nos conseguiu convencer. Um de nós sugeriu irmos para o Urban. Chegamos, e confusão era enorme. Sábado á noite, fila cheia de adolescentes. A vontade de desistir daquele plano esmorece com a quantidade de raparigas bonitas que vimos. Rapazes bêbedos têm tendência a reparar e a exagerar nos comentários sobre raparigas.

No meio da espera falamos um pouco de tudo, naqueles momentos de estupidez apenas interrompidos pelo silêncio sepulcral que fazemos quando passa alguma rapariga mais produzida, mais despida. Entramos. Missão cumprida. Olho em redor e logo vi que os perdi de vista. Sinto a mão leve, dirijo me ao bar. 

De copo na mão, olho à minha volta. No meio de uma multidão, a solidão sente-se mais. Esvazio o copo, sinto o calor na garganta. Esqueço tudo isso, só me quero divertir. Mesmo que seja sozinho. No meio de mais uma crise existencial, noto numa rapariga. Morena, cabelo comprido, cara bonita. Ela notou que eu estava a olhar, sorriu para mim e continuou a dançar. Não sei se avançar, ou apenas ali ficar. Nunca percebi as raparigas, quanto mais os seus sinais.

Do nada apareceram os meus amigos, eufóricos, em êxtase. A energia era contagiante. Eles viram logo qual era o meu interesse no meio daquela multidão. Incentivam-me a tentar. Acabo com a vodka do meu copo. Digo que vou a casa de banho e que depois venho disposto a arriscar. 

Viagem do inferno. A casa de banho mais me parecia ter sido construida na sibéria, tal a quantidade de bêbedos que entornaram vodka em mim. Maratona de esforço para quem está embriagado. Despachei-me e voltei para o balcão do bar. Não vejo ninguém à primeira vista, varro com o olhar toda aquela zona. Lá está ela…. Mas quem é aquele gajo que está com ela? Foco o olhar, quem está com ela é um dos meus amigos.  

Fiquei sóbrio naquele mesmo instante. Sentia o sangue a ferver. Fechei o punho sobre o balcão. Furioso, bêbedo, fora de mim. Flashbacks invadiram a minha mente. Vejo murros, oiço gritos de muita gente. Sinto o corpo pesado, alguém a agarrar-me. Volto a mim. Estou a ser arrastado, olho em redor e vejo o meu amigo no chão, sinto o sangue dele na minha mão. 

Saiu do meio da multidão, triste, magoado em quem confiei. Sozinho, sento-me na rua, começo a chorar. Penso “se eu soubesse não tinha saído da minha cidade”  

domingo, 16 de março de 2014

Sentado na rua






“Nada, na verdade, faz muito sentido hoje em dia”- disse ele despreocupado para o vazio.


Ele estava sentado num banco de uma qualquer rua, desta cidade vazia. O bom de ter conversas sozinho é que ninguém te irá contrariar, não terás de ouvir nenhuma resposta irónica ou uma ideia tresloucada. São estas conversas, muitas vezes apenas mentais em que as pessoas se dividem em duas e trocam pensamentos confusos, que te fazem pensar ou apenas divagar no vazio. Aquelas trips que fazes sem fumar ou beber nada….


E ali estava ele, impávido e sereno, sentado no banco a olhar em seu redor. Via as pessoas que passavam, as crianças que brincavam na rua, as casas, as lojas. 


Era uma rua com algumas lojas e cafés, umas casas de estilo rústico, perto do centro da cidade. A rua noutros tempos, era movimentada, cheia de lojas e pessoas. Noutros tempos, quando ele era mais pequeno, uma criança inocente. Hoje em dia, a rua tinha lojas fechadas, menos pessoas. Hoje em dia, ele era considerado um homem. 


Ele centrava-se cada vez mais nas lojas vazias, nas casas defuntas, vazias de pessoas, repletas de recordações.


“Como é que as coisas podem mudar tanto em tão pouco tempo?”- pensou ele.


O pensamento será comum à maior parte dos mortais. Mais um pensamento inconsequente, resultado de mais um devaneio. E ele continuava…


“Tantas construções sem um propósito útil… Tanto lugar vazio, enquanto as pessoas constroem longe daqui…”


O seu raciocínio estava confuso. Ele na verdade, não percebia muito bem qual o propósito de tanta casa e loja vazia. 


Ele permaneceu sentado, a pensar em tudo aquilo. O dia escureceu, os últimos raios de sol do dia batiam no seu corpo imóvel. A verdade é que aquelas casas e aquelas lojas foram construídas com um propósito, um interesse. Assim que esse propósito e esse interesse desvaneceram, as lojas e as casas tornaram-se apenas recordações da grandeza que um dia alcançaram. Como que tudo aquilo atingiu o prazo de validar e foi deixado de lado. O seu propósito e interesse desapareceram, agora limitam-se a existir. 


Tal como essas casas e essas lojas, também relações entre pessoas enfrentam o mesmo. O propósito e o interesse desapareceram há muito. Mantém-se uma existência moribunda, tapada e ofuscada por novas relações, apenas por inoperância ou incapacidade de fechar mais um capitulo da nossa vida. 


Já era noite, a lua brilhava bem alto. Ele olhava em redor. A rua agora estava deserta. Todas as lojas fechadas. Todas as casas desocupadas. A maresia caia com doce travo a nostalgia. Ele percebeu que era a hora de deixar aquela rua. De procurar uma nova, com novas casas, lojas e pessoas. E saiu sem rumo, nem direcção. Apenas à procura de uma nova rua.