" A vida é uma merda"- diz ele enquanto olha para mais uma garrafa vazia de vodka.
Cliché, pensou ele. Mais uma história envolta em álcool e nostalgia. 2 anos. 5 meses. 7 semanas. 3 dias. Não interessa quanto tempo andas para trás nesta história. Ela é igual e cíclica. Existe um rapaz que está triste. Desiludido com a vida, com tudo e todos. Com quem o abandonou. Com quem já não está cá. Com ele por a ter deixado fugir-lhe "entre os dedos".
Ele apenas olhava fixamente para a tele em branco do computador. Estava, segundo o termo técnico, em Bloqueio Criativo. Ele sabia que era muito mais profundo do que isso. Um escritor vive da escrita. E ele não escrevia há semanas. Meses. Anos.
-Pode estar de coração destroçado e consequentemente sem ideias ou motivação. - diz o leitor mais romântico deste texto.
-Se calhar é pura e simplesmente falta de talento! - pensa aquela pessoa mais agressiva e amarga.
Ele ia se identificar muito mais com a segunda visão. Uma visão mais amarga da situação, do mundo. Ele poderia utilizar uma metáfora significativa sobre as cores, e como esta visão amarga poderia ser uma "visão a preto e branco". Mas não. Preto e branco é filtro do Instagram que torna tudo mais romântico. Trás aquela simbologia que todos nós sabemos, a simbologia das histórias de amor em preto e branco, das histórias que nos impingiram para termos a ilusão de que amor é felicidade.
-Amor?!? Amor é a maior filha da putice que existe!- gritou ele enquanto varria a mesa com o seu braço direito pondo tudo em queda livre em direcção ao chão.
Se isto fosse um filme ficaria bem uma acção em slowmotion dos objectos a se partirem no chão. Um momento Kodak da coisa.
Oh se ficava bem!- pensou ele continuando com aquele olhar petrificado para a confusão que tinha criado.
Para uma pessoa confusa, a confusão por si só tem um certo romantismo no olhar. E porra, como ele era romântico e adorava a ideia de se apaixonar pelo que imaginava ser a situação.
-Julgava que era amor... Que ela era a tal.... Imaginei-nos mais velhos, com 2 filhos criados, uma casa na cidade e outra à beira-mar.... Imaginei- falou entre bafos de cigarro, com um tom nostálgico e triste como se de uma balada de amor de Arctic Monkeys se tratasse.
-Do início claro. Do teenager Alex Turner, quando tudo era mais verdadeiro e sem o intuito de agradar a massas- disse ele enquanto olhava para o maço de tabaco- No início é tudo assim: mais verdadeiro, mais real; mais sentido.
Ele contava mentalmente os cigarros que faltavam para acabar o maço. Pensava se chegariam para mais uma noite de solidão e nostálgia. Eram 3 da manhã e a sua tentação não era unica e exclusivamente o tabaco e o álcool. Telemóvel com um numero dos contactos aberto. "Raquel <3", e a foto de uma morena baixinha preenchiam a tela do smartphone.
-Aquele coração é meio estúpido- pensam vocês.
-E o amor não é isso? Estupidez em estado pura, ter aqueles comportamentos que julgavas nunca ter apenas porque a pessoa te fode tanto com o psicológico como fode o teu corpo. Isso é amor! Uma foda psicológica total, um estado mental de loucura que de saudável pouco tem. - responde ele olhando para o infinito, como se soubesse que aquela triste história está a ser relatada.
Como seria bom acabar esta história com uma frase romântica e filosófica do protagonista. Valorando a sua personalidade, o seu intelecto. Dando uma conotação de herói e simpatia dos leitores para com o protagonista da história. Mas a vida real não é assim....
*chamada de telemóvel*
-Estou... quem fala?- pergunta uma voz doce e afável.
-Como é que me esqueceste tão rápido?- disse ele após alguns segundos de silêncio e contemplação da sua voz.
-Filipe, és tu?? Como é que tens este número?!?! Já te disse para parares de me ligares...- gritou ela furiosa
-Calma... Isso não importa... Só te queria dizer uma coisa... - disse ele serenamente
-Tornas a minha vida um inferno, não falas durante mais de um ano e agora ligas me a quase às 4 da manhã?!? Estás maluco?- continuou ela protestando
-Já fui maluco... Maluco por ti. Melhor pela imagem que tinha de ti... Agora não. Estou apenas bêbedo, a pensar no quanto me fodeste a vida sua puta de merda!- começou ele aumentando o tom de voz- Como foi possível fazeres me aquilo? O João era meu amigo caralho!- gritou ele.
-Filipe, que se pass... - dizia ela até ser interrompida de novo
-Filipe o caralho! Tu sua grandíssima puta, encornaste-me com um dos meus amigos e eu passei anos a tentar perceber onde errei para te perder! E afinal hoje percebi que não passas de um bocado de merda e que o erro foi teu...
*som de choro do outro lado da linha*
-E não chores sua puta! não é isso que vai reunir a minha simpatia- disse confiante
-Filipe estou preocupada contigo! Onde estás? Queres que vá ter contigo?- perguntou ela aflita entre sons de choro.
-Como assim estás preocupada? Agora é que estás preocupada comigo sua cabra!- disse furioso
- Filipe... Tu não estás bem... Isso não aconteceu comigo... Aconteceu entre ti e a Sofia. Tu nunca superas-te isso na altura e ainda não o superas-te. Eu tentei-te perdoar por isso mas não consegui Filipe. Eu amava-te demais mas tudo o que via quando olhava para ti era vocês os dois. Eu tentei... Mas tu tens um problema grave Filipe. Amaste a pessoa errada demais... Mais do que alguma vez me amaste.
-O que?- disse ele confuso- Que estás a dizer? Estou maluco?
- Onde estás tou preocupad...
*fim de chamada*
Ele desligou a chamada confuso.
-Estarei maluco?- pensou ele.
Não, não é possível. Aquilo tem de ser mentira. TEM QUE SER MENTIRA!- gritou mandando o telemóvel contra a parede.
Oh como é bonita a confusão. Tecnologia despedaçada no chão da sala por uma força humana desumana. Ele apenas olhava para mais um momento de confusão e devaneio pessoal, enquanto sentado no chão, as lágrimas começavam a cair. Fechou os olhos.
Flashbacks momentâneos dos prazeres de outra altura. A história mesmo fragmentada fazia sentido. A da Raquel. Não a dele.
-Estarei maluco?- disse ele.
-Não, não estás maluco- respondeu ele próprio, continuando- ela tem razão, mas o ser humano camuflua os seus erros reprimindo-os. Para ti, tu serás sempre boa pessoa. Para ti serás sempre o nice guy.
-Mas não o sou. Magoei quem mais me amava.
-E as pessoas antes não te magoaram? Tens desculpa, foderam-te à grande antes, podes ser assim agora. És traumatizado. Foste a vítima. E os bons rapazes também erram Filipe.
-Não! Eu estraguei tudo! Não sou boa pessoa- disse ele abrindo a janela da varanda.
-Que estás a fazer? - disse ele a ele próprio
-Estou a corrigir tudo... - sussurrou como se de uma confissão se tratasse, saltando de imediato do 8º andar
Cliché. Pensou ele nos últimos instantes. O suicídio de um jovem escritor promissor. O triste fim para mais uma história de amor.
"História triste" diz o leitor. Mas meu caro leitor, não há espaço para um final feliz nas histórias de amor...
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Quando acabará a nostalgia e começará o regresso a felicidade?
4 da manhã. O frio na nuca gela-o. Ele dá mais um bafo no cigarro e olha para a garrafa quase vazia de vodka.O olhar no horizonte, como se dali pudessem vir todas as respostas para os seus problemas.
Apesar de estar sentado na escadaria da velha biblioteca da cidade, ele sentia-se mais inculto que nunca. Confuso. Disperso.
Olhos fechados, e memória a trabalhar:
"-Anda deixa de ser preguiçoso! - disse ela, enquanto se acabava de arranjar.
-Não é preguiça... Apenas podíamos ficar por casa a ver um filme e a fazer algo mais interessante- retorquiu ele abraçando-a pelas costas e dando-lhe um beijo no pescoço.
-Não, nem pensar que o menino pensa que se escapa assim... Vamos sair, estar com os nossos amigos, eles vieram de propósito por .... - dizia ela sendo interrompida por ele que num gesto repentino a pegou ao colo não a deixando acabar a frase.
-Larga-me! Isso é jogo baixo- gritou ela enquanto era atirada para a cama.
-EU... É ... QUE...MANDO...- disse ele interrompendo a frase para a beijar na boca..."
Mais um golo naquele bebida fria. Mais um golo para esquecer. Esquecer o que a vida lhe levou, ao que perdeu, ao que desperdiçou. Definitivamente ele não era um bêbedo feliz naquele momento. Há muito que não o era. Entre bafos de cigarro, assentia com a cabeça em sinal de negação. Com um suspiro escapou-lhe um "como é que fodi isto tudo?".
"-Para que?!?- gritou ela visivelmente enervada, continuando- Para mais uma vez não dares valor às nossas amizades? Dizeres que eles são isto e aquilo?- atirou a mala dela para cima da mesa da sala.
-Amor, só disse o que acho. Eles são um bando de snobs preocupados com aspectos de trintões que ainda não são. Porque me devem eles julgar se sou feliz assim? Feliz contigo e fazendo o que gosto?- respondeu ele, tentando-a acalmar.
-Tu simplesmente gozaste com eles. És um gozão, sabes disso e não te preocupas-te com o que eles pensariam disso!- disse ela descalçando os saltos altos que ele lhe oferecera nos anos.
-Sabes como eu sou, porra! Não vou mudar para agradar aos teus amigos!- gritou ele sendo de imediato interrompido.
-Nossos! Nossos amigos... Ou esqueceste-te de tudo o que passamos juntos no secundário com eles?- interrogou-o com um olhar reprovador.
-Não me fodas... Se eles fossem nossos amigos mesmo, não nos víamos de 3 em 3 meses e não falávamos de coisas aleatórias e não tentavam constantemente vangloriar-se.- disse ele enervado."
Discussões parvas, desabafou ele, acabando finalmente a garrafa de vodka. Preocupei-me demais com quem não devia, e acabei por perder tudo...- continuou ele na saga de tristeza e deprimência.
E ficou novamente a olhar fixamente o horizonte, tentando perceber como dar a volta a tudo. Dar a volta estando na mesma cidade e sem tudo o que um dia teve.
Mais um cigarro aceso, mais uma memória torturante. Quando acabará a nostalgia e começará o regresso a felicidade?
Apesar de estar sentado na escadaria da velha biblioteca da cidade, ele sentia-se mais inculto que nunca. Confuso. Disperso.
Olhos fechados, e memória a trabalhar:
"-Anda deixa de ser preguiçoso! - disse ela, enquanto se acabava de arranjar.
-Não é preguiça... Apenas podíamos ficar por casa a ver um filme e a fazer algo mais interessante- retorquiu ele abraçando-a pelas costas e dando-lhe um beijo no pescoço.
-Não, nem pensar que o menino pensa que se escapa assim... Vamos sair, estar com os nossos amigos, eles vieram de propósito por .... - dizia ela sendo interrompida por ele que num gesto repentino a pegou ao colo não a deixando acabar a frase.
-Larga-me! Isso é jogo baixo- gritou ela enquanto era atirada para a cama.
-EU... É ... QUE...MANDO...- disse ele interrompendo a frase para a beijar na boca..."
Mais um golo naquele bebida fria. Mais um golo para esquecer. Esquecer o que a vida lhe levou, ao que perdeu, ao que desperdiçou. Definitivamente ele não era um bêbedo feliz naquele momento. Há muito que não o era. Entre bafos de cigarro, assentia com a cabeça em sinal de negação. Com um suspiro escapou-lhe um "como é que fodi isto tudo?".
"-Para que?!?- gritou ela visivelmente enervada, continuando- Para mais uma vez não dares valor às nossas amizades? Dizeres que eles são isto e aquilo?- atirou a mala dela para cima da mesa da sala.
-Amor, só disse o que acho. Eles são um bando de snobs preocupados com aspectos de trintões que ainda não são. Porque me devem eles julgar se sou feliz assim? Feliz contigo e fazendo o que gosto?- respondeu ele, tentando-a acalmar.
-Tu simplesmente gozaste com eles. És um gozão, sabes disso e não te preocupas-te com o que eles pensariam disso!- disse ela descalçando os saltos altos que ele lhe oferecera nos anos.
-Sabes como eu sou, porra! Não vou mudar para agradar aos teus amigos!- gritou ele sendo de imediato interrompido.
-Nossos! Nossos amigos... Ou esqueceste-te de tudo o que passamos juntos no secundário com eles?- interrogou-o com um olhar reprovador.
-Não me fodas... Se eles fossem nossos amigos mesmo, não nos víamos de 3 em 3 meses e não falávamos de coisas aleatórias e não tentavam constantemente vangloriar-se.- disse ele enervado."
Discussões parvas, desabafou ele, acabando finalmente a garrafa de vodka. Preocupei-me demais com quem não devia, e acabei por perder tudo...- continuou ele na saga de tristeza e deprimência.
E ficou novamente a olhar fixamente o horizonte, tentando perceber como dar a volta a tudo. Dar a volta estando na mesma cidade e sem tudo o que um dia teve.
Mais um cigarro aceso, mais uma memória torturante. Quando acabará a nostalgia e começará o regresso a felicidade?
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