quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Lição de vida




Caminho em passo de corrida para a licenciatura. Revejo todos os meus anos de ensino básico e secundário. Era suposto estar mais culto, mais instruído. A ideia que nos é vendida é, que estudamos tanto tempo para estarmos sábios, preparados para a vida. Bem sábio não me sinto, preparado muito menos. A vida é uma confusão, um conjunto de caminhos, acasos e escolhas tomadas por acidente. 

Nós não estamos, nem nunca estaremos preparados para a vida. Vamos aprendendo a lidar com ela, isso é certo. E isso não se deve à escola. Não quero menosprezar o valor que a escola e o ensino têm na nossa vida. Eles são importantes para os nossos futuros empregos. Assim se formam doutores, engenheiros, etc. 

            Mas o que realmente importa para a vida, aprendemos com ela própria. Vamos aprendendo tudo, desde as pequenas coisas às mais importantes. Vamos aprendendo a viver e a sermos felizes.
            Eu, como todos nós, já aprendi algumas coisas nesta coisa louca a que chamamos vida. Primeiro, Roma deve ser a série com mais sexo anal da história da televisão. Game of Thrones também tem muito mas acho que menos. Não que seja contra a prática de sexo anal, apenas não percebo porque é que as televisões têm tanta necessidade de mostrar sexo anal como o Tomás Taveira.

            Segundo, as pessoas são estupidas. Não são estupidas no literal sentido da palavra, apenas por vezes parecem estupidas, ou tomam um conjunto de escolhas estupidas. Toda a gente o faz e o é em algum momento (muitos momentos, verdade) da sua vida. E sim, isso também inclui-me no lote.
            Por exemplo, se gostas de alguém luta até ao fim. A pessoa na grande maioria dos casos não vale a pena, mas mesmo assim luta. Desistir é a pior coisa que podes fazer. Não é por lutares mais que as coisas vão correr bem, não te iludas. Mas é por lutares até ao fim, até ao momento em que não dá mais que a ilusão acaba e a dor de não seres o suficiente para aquela pessoa começa. Parecem más notícias mas é por lutares até ao fim que existe o reconforto de saberes que deste tudo, que se não aconteceu era porque não estava destinado a acontecer. A dor torna-se mais suportável, acabando por desaparecer. Essa é a diferença entre esta dor e a dor com que tens de viver todos os dias se desistires. O constante “e se…” que aparece na tua cabeça vai conquistando a tua mente aos poucos até que invade-te totalmente.   Por isso nunca desistas da pessoa que tu achas especial.

            Aprendi que na vida nada é fácil mas que companhia tudo fica mais suportável. Porque quando estás perto de fazer merda, os teus verdadeiros amigos não te impedem, fazem a merda contigo e arcam todos com a responsabilidade. Isto é amizade pura. Amizade são aqueles que não se esquecem de ti, e são aqueles que te carregam até ao carro quando estás podre de bêbedo a dizer porcarias sobre a vida e a tua ex. Não são aquelas dezenas ou centenas que tens no facebook ou no twitter, são aqueles que tu contas pelos dedos da tua mão que tão em todas as recordações que tens. Muitas vezes podes ter atitudes estupidas para eles e eles para ti, mas nunca te esqueças de quem eles na verdade são.

            A vida já me ensinou muita coisa, e a ti??

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Copo vazio, copo cheio




Olho para mais um copo vazio. Em redor uma mesa cheia de pessoas vazias. Entro em piloto automático, vagueando num mar de nostalgias e frustrações. Penso no passado, no presente, no futuro. Olho para algumas pessoas que tanto me diziam, e que agora não me dizem nada. Isto deve-se a mudanças, que tão repentinamente entraram no meu mundo, como o transformaram o meu ser numa nova Hiroshima tomada por chamas e gritos de desespero. E tal como o barro é moldado, também nós pessoas o somos, e consequentemente eu sou moldado no meio deste ambiente hostil criado por mim próprio na minha mente. Interrompem a minha bad trip natural, para me perguntarem algo. Perguntaram-me algo, mas sinceramente não sei o que. Podia ser sobre política, futebol ou religião, o mais provável era que tenha sido algo sobre o meu círculo de amigos, ou alguma baboseira de repercussões históricas para o nosso registo criminal que eu ainda tenho inacabado. Provavelmente, acenei afirmativamente com a cabeça dizendo uma expressão tão profunda como “hmm”. A minha atenção volta-se para o copo vazio. Sinto um instinto de sobrevivência nem que seja pela minha vida social, e volto ao bar para encher o copo e o meu corpo de uma substância que faça a minha existência mais plausível, e todo e qualquer contacto humano numa noite deprimente possível. 

Alguns podem achar esta relação alcoólica pouco saudável. Na verdade penso nesta relação como uma simbiose, eu deixo de ficar sóbrio e de pensar no que não devia, e a vodka encontra em mim um porto de abrigo em vez de acabarem no estômago de uns russos. Toda a gente ganha, menos os russos que mantendo-se sóbrios têm que se lembrar constantemente que Putin é o nome associado ao seu país.

Volto ao meu lugar no meio daquela roda social, impávida e serena à minha saída e à minha chegada. Quer dizer, voltava. O meu lugar foi ocupado por uma cara familiar. Sinto-me traído, zangado por me terem trocado, vou explodir, vou mostrar que aquele lugar é meu…. Não, bebo o que tinha no copo. Sinto o calor a descer pela minha garganta, levando a raiva com ele. Abro um sorriso, e digo que não há problema. Vou buscar uma cadeira e sento-me, ficando desta vez mais afastado do centro da roda. Parece que estou mais distante de todos. Se calhar o problema é que estou novamente sóbrio de mais. Concentro-me no meu copo, depois noutro e outro. Não vou sendo incomodado por ninguém daquela roda social, que continua impávida e serena, enquanto eu faço um vaivém constante reabastecendo-me de álcool. Mas cada vez que volto, fico mais longe do centro, e longe vou ficando. Foco-me mais no copo, voltando sempre para um lugar mais longe do centro de tudo. Até que um dia deixo de voltar á roda, e fico apenas eu e o meu copo. Tentando-me esquecer de tudo, tentando não me lembrar de todas as mudanças que me empurraram para aqui.  

A despedida


“-Não digas nem uma palavra. Não quero ouvir a tua suave voz que me acalma. Não me olhes com esse olhar meigo e querido. O mesmo olhar por o qual me apaixonei. Simplesmente presta atenção, pois é tanta a dor com que faço isto que me seria impossível de voltar a fazê-lo.”

A voz saia embargada, com pequenas falhas. Na verdade, parecia a voz de um miúdo pequeno triste, perto de chorar porque perdeu o seu brinquedo preferido. De facto, ele sentia-se um miúdo prestes a perder o seu brinquedo favorito. Os sentimentos sobrepunham-se a razão e ao discurso que ele tantas vezes tinha ensaiado em casa. O silêncio impôs….

 “ – O que me queres dizer?”- disse ela com preocupação

“-Por favor, não digas nada”…. Disse ele enquanto começava a chorar. Homem não chora, e não posso parecer fraco agora, pensou ele.

"- Eu sei que não gostas que fale no que sinto, dizes que ficas constrangida. Na verdade não percebo porque ficas constrangida. Uma rapariga bonita e inteligente como tu tem que estar habituada a ser a protagonista em qualquer história. Mas tenho que te dizer que para mim acabou. Acabou, não consigo mais lutar. É insuportável esta dor que sinto por na verdade não te ter. Esta máscara de que esta tudo bem, quando não esta, tem de cair. Amo-te mas é insuportável, estar contigo e não poder dizer-te como me sinto, abraçar-te, compreender-te, tocar-te, trocar juras de amor eterno, beijar-te, apoiar-te, tornar-te feliz… Por isso tudo, acabou. Tudo isto não passa de um desejo platónico e inconsequente, um devaneio de quem não está completamente racional ou lógico. Percebo que no amor não haja racionalidade ou lógica, mas de uma forma fria podemos ver que isto estava destinado a não acontecer.
Tenho que desistir, seguir em frente para poder ser feliz. Como não o sou há muito tempo. E…Feliz…é acima de tudo o que eu quero, que sejas feliz. A tua felicidade e o mais importante nesta vida. E tu podes ser feliz sem mim, já o és, agora é a minha vez de o tentar ser, mas para isso tenho que desistir de lutar, dizer que acabou, fechar a porta que se manteve entreaberta durante tanto tempo.
Um dia desejei que fosses o meu futuro, quando hoje em dia apenas quero que sejas o meu passado. Uma memória, apesar de tudo feliz, com a qual eu possa recordar com um sorriso nos lábios e uma nostalgia inconsequente.
Gosto e sempre gostarei de ti, mas o futuro reserva-nos outras pessoas e a felicidade daí adjacente. Gosto de ti, mas esta é a despedida.”

Ele levantou a cabeça, o seu olhar encontrou o dela. Aquele olhar sereno que o acalmava, estava agora humedecido por lágrimas e transformado num olhar fraternal e de compaixão. Ela levantou a mão e acariciou a face dele. Ele agarrou na sua mão, beijou-a e deixou-a cair. Era o fim, o equivalente a deitar a toalha ao chão no boxe. Ele sabia que era para o seu melhor. Virou costas, e andou sem rumo ou razão, deixando quem um dia disse nunca abandonar, exausto de tanto lutar.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

No fundo de uma garrafa




“A vida é uma merda”, dizia ele despreocupado enquanto acabava de beber a garrafa de vodka. 

Quando tas bêbedo, os problemas deixam te de preocupar, e dizes tudo com a genuinidade que perdeste desde que deixas-te de ser criança. Passas a noite a divagar e a construir uma conversa tendo como alicerces criticas tão cheias de álcool como de verdade. Criticas sobre a vida, sobre os que te deixaram, do que passou, sobre as pessoas de quem sentes falta e do que querias ter mas não tens. E talvez, no final dessa noite, vislumbres no final de mais uma garrafa como tudo era melhor no passado. Nós praticamente perdemos tudo que valha a pena viver para ter, ver e luta, e nem nos apercebemos disso. E a pior parte é que todos nós já pensamos assim.

E aqui estamos no fim da noite, num mundo em que todos estamos tão desesperados para sentirmos algo, qualquer coisa, que batemos uns nos outros, despegados de emoção e estragamos os nossos caminhos para a felicidade ao longo da nossa existência.