Loja
fechada. Mais um dia de trabalho concluído. Com o trabalho acabado, balanço do
dia é inevitável. Tanto esforço e a nota é pequena. Pequena para os sonhos,
tudo o que ele queria.
Não
fui isto que ele tinha idealizado para a sua vida quando era mais pequeno. Na
inocência da displicência da idade tudo parecia caminhar certo. Encaixar. Num
mundo tão mais fácil e concreto.
Nesta
vida tão dúbia só aquele trabalho lhe parecia certo. As obrigações faziam-no
trabalhar como nunca. Os sonhos faziam-no nunca desistir. Aquela promoção, o
lugar de sonho tinha que ser seu. E ele só via isso. Trabalhava com afinco, com
objectivo de um dia ser mais do que é hoje.
O
caminho para casa parecia sinuoso. As esquinas confundiam-se com as sombras de
uma noite fria e despida de pessoas. O ritmo das suas passadas eram o único
barulho que se destacava na cidade agora vazia. E ele cabisbaixo pensava em
mais um dia de trabalho, mais um dia sem a tão desejada conversa.
“Será
isto tudo? Será isto suficiente?”- pensava ele, cabisbaixo, olhando para a tela
do telemóvel com uma qualquer app social aberta.
Reflectido
no seu olhar desabafos de pessoas resumidas a 140 caracteres de cada vez.
Desconhecidos “amigos” a contarem a sua vida, enquanto ali estava ele, sozinho
na rua, tentando-se ligar ao mundo.
“Isto
tudo é escasso…”- Dizia ele de forma mental, lembrando-se de momentos do
secundário. Momentos mais simples.
Aquele
caminho parecia-lhe cada vez maior e tenebroso. A sua casa parecia cada vez
mais longe. As ruas menos familiares. Aquela vontade inigualável de lutar e
apenas trabalhar desaparecia aos poucos.
“-Anda comigo! Vamos jantar juntos mais o
pessoal!- exclamava entusiasta uma rapariga morena que o puxava pela mão.
- Vá deixa de ser preguiçoso, vai
ser divertido!- disse ela chegando ao pé dele-
-Prometo… - disse ela beijando-o
na boca em seguida.”
Abriu os
olhos, saindo daquele flashback viciante. Como era boa aquela sensação.
“Oxitocina, que filha da puta”, pensava ele, imponente por saber a hormona
responsável por aquele estado de felicidade.
A saudade
apoderava-lhe a mente. Não a saudade especificamente em relação aquela pessoa
mas aquela situação. Aquele momento. Aquela felicidade. Amor, diziam eles.
Paixão, dizia ele. Ternura, diria ela certamente com aquele olhar viciante e
cativante que o iria fascinar para sempre.
Sentindo-se
confuso, parou de caminhar. Sentou-se numa paragem de autocarros aleatória,
escolhida por conveniência geográfica. Sentou-se e fechou os olhos.
“Passa a bola, caralho!!!-
gritavam-lhe do flanco direito. Ele olhou para o chão e tinha uma bola Nike à
sua frente, um adversário faminto, predador voraz querendo-lhe roubar aquele
bem precioso. Um drible curto ao estilo do Maestro, como no jogo que ele tinha
visto na noite anterior. O defesa ultrapassado, uma oportunidade de alvejar a
baliza. Remate colocado, mais em técnica do que em força. O suspense momentâneo
em que o seu olhar confunde-se com a trajectória da bola.
-GOLO!!!- gritaram eles, indo em
direcção dele, festejando como um golo de Liga dos Campeões. Calduços, poses
ridículas imitando Aimar e Saviola, festejos excêntricos de uma alegria
extrema.”
-Desculpe,
está tudo bem?- perguntou-lhe uma cara bonita, acordando-o daquela recordação
em estado hipnótico.
-Na verdade,
não sei muito bem se está ou não…- Disse ele entre sorrisos nervosos para
conter as lágrimas que forçavam a saída.
-Mas passasse
alguma coisa? Precisas que chame alguém? Ajuda?- disse ela, uma rapariga na
casa dos 20, ruiva, bem bonitinha.
Ele abanou a
cabeça em sinal de negação, deixando o silêncio adensar um clima de tristeza.
Ela sentou-se ao pé dele naquela paragem vazia.
Ele
pressentia que ela não sabia o que fazer. Ela parecia entrar num dúbio drama de
entrar em pânico e chamar toda a ajuda possível e simplesmente desistir e
seguir caminho, ignorando toda aquela situação.
A segunda
opção ganhou terreno e se transformou em acção, num movimento de despedida, de
abandono, levantando-se de forma rápida do banco. E nesse exacto momento, ele
agarrou-a pela mão e olhou para ela com os olhos humedecidos das lágrimas há
muito contidas.
-Não vás…
Chama ajuda… Chama-me à razão…. Porque há muito mais na vida do que aquilo do
que luto agora.- Disse ele com a voz trémula.
-Chama-me à razão, porque desisti da vida para
trabalhar de forma incessante, perdendo o significado da palavra vida e do que
realmente é bom nela.