domingo, 2 de agosto de 2015

O regresso...


Chegado ao destino, carro acabado de estacionar. Entre malas e bagagens, ele tenta-se convencer que está de regresso á sua cidade natal. A vida dá muitas voltas, e a dele fez o voltar aonde ele já não pensava ser possível.

O reencontro com aquelas ruas familiares não o fazem esquecer o passado. Um passado marcado por tantos momentos felizes. E como aquela nostalgia bate. As memórias tornam-se vívidas e claras, a saudade de algumas pessoas torna-se incomportável. O smartphone volta a ter utilidade. Mensagens e chamadas para aqueles de quem ele mais sente falta.

Entre risos e conversas sem significado, aquelas chamadas naquele contexto nostálgico fê-lo voltar uns anos atrás, onde tudo era mais fácil. Simples.

Ele percorria as ruas e o avolumar de respostas negativas para mais gente voltar aquela cidade, mais as ruas lhe pareciam agora desconhecidas. Estranhas. A explanada onde costumava ir com os amigos parecia-lhe diferente. O jardim onde tantas vezes foi feliz parecia agora um local sem vida.

E os flashbacks de um passado feliz deram origem a momentos de nostalgia e declínio. A cidade era a mesma. O tempo era outro. O tempo de ser feliz parece que já passou…

sexta-feira, 13 de março de 2015

Loja fechada. Noite de balanço

Loja fechada. Mais um dia de trabalho concluído. Com o trabalho acabado, balanço do dia é inevitável. Tanto esforço e a nota é pequena. Pequena para os sonhos, tudo o que ele queria.

            Não fui isto que ele tinha idealizado para a sua vida quando era mais pequeno. Na inocência da displicência da idade tudo parecia caminhar certo. Encaixar. Num mundo tão mais fácil e concreto.

            Nesta vida tão dúbia só aquele trabalho lhe parecia certo. As obrigações faziam-no trabalhar como nunca. Os sonhos faziam-no nunca desistir. Aquela promoção, o lugar de sonho tinha que ser seu. E ele só via isso. Trabalhava com afinco, com objectivo de um dia ser mais do que é hoje.

            O caminho para casa parecia sinuoso. As esquinas confundiam-se com as sombras de uma noite fria e despida de pessoas. O ritmo das suas passadas eram o único barulho que se destacava na cidade agora vazia. E ele cabisbaixo pensava em mais um dia de trabalho, mais um dia sem a tão desejada conversa.

            “Será isto tudo? Será isto suficiente?”- pensava ele, cabisbaixo, olhando para a tela do telemóvel com uma qualquer app social aberta.

            Reflectido no seu olhar desabafos de pessoas resumidas a 140 caracteres de cada vez. Desconhecidos “amigos” a contarem a sua vida, enquanto ali estava ele, sozinho na rua, tentando-se ligar ao mundo.

            “Isto tudo é escasso…”- Dizia ele de forma mental, lembrando-se de momentos do secundário. Momentos mais simples.

            Aquele caminho parecia-lhe cada vez maior e tenebroso. A sua casa parecia cada vez mais longe. As ruas menos familiares. Aquela vontade inigualável de lutar e apenas trabalhar desaparecia aos poucos.

            “-Anda comigo! Vamos jantar juntos mais o pessoal!- exclamava entusiasta uma rapariga morena que o puxava pela mão.
- Vá deixa de ser preguiçoso, vai ser divertido!- disse ela chegando ao pé dele-
-Prometo… - disse ela beijando-o na boca em seguida.”  

Abriu os olhos, saindo daquele flashback viciante. Como era boa aquela sensação. “Oxitocina, que filha da puta”, pensava ele, imponente por saber a hormona responsável por aquele estado de felicidade.

A saudade apoderava-lhe a mente. Não a saudade especificamente em relação aquela pessoa mas aquela situação. Aquele momento. Aquela felicidade. Amor, diziam eles. Paixão, dizia ele. Ternura, diria ela certamente com aquele olhar viciante e cativante que o iria fascinar para sempre.

Sentindo-se confuso, parou de caminhar. Sentou-se numa paragem de autocarros aleatória, escolhida por conveniência geográfica. Sentou-se e fechou os olhos.

“Passa a bola, caralho!!!- gritavam-lhe do flanco direito. Ele olhou para o chão e tinha uma bola Nike à sua frente, um adversário faminto, predador voraz querendo-lhe roubar aquele bem precioso. Um drible curto ao estilo do Maestro, como no jogo que ele tinha visto na noite anterior. O defesa ultrapassado, uma oportunidade de alvejar a baliza. Remate colocado, mais em técnica do que em força. O suspense momentâneo em que o seu olhar confunde-se com a trajectória da bola.
-GOLO!!!- gritaram eles, indo em direcção dele, festejando como um golo de Liga dos Campeões. Calduços, poses ridículas imitando Aimar e Saviola, festejos excêntricos de uma alegria extrema.”

-Desculpe, está tudo bem?- perguntou-lhe uma cara bonita, acordando-o daquela recordação em estado hipnótico.

-Na verdade, não sei muito bem se está ou não…- Disse ele entre sorrisos nervosos para conter as lágrimas que forçavam a saída.

-Mas passasse alguma coisa? Precisas que chame alguém? Ajuda?- disse ela, uma rapariga na casa dos 20, ruiva, bem bonitinha.

Ele abanou a cabeça em sinal de negação, deixando o silêncio adensar um clima de tristeza. Ela sentou-se ao pé dele naquela paragem vazia.

Ele pressentia que ela não sabia o que fazer. Ela parecia entrar num dúbio drama de entrar em pânico e chamar toda a ajuda possível e simplesmente desistir e seguir caminho, ignorando toda aquela situação.

A segunda opção ganhou terreno e se transformou em acção, num movimento de despedida, de abandono, levantando-se de forma rápida do banco. E nesse exacto momento, ele agarrou-a pela mão e olhou para ela com os olhos humedecidos das lágrimas há muito contidas.

-Não vás… Chama ajuda… Chama-me à razão…. Porque há muito mais na vida do que aquilo do que luto agora.- Disse ele com a voz trémula.


 -Chama-me à razão, porque desisti da vida para trabalhar de forma incessante, perdendo o significado da palavra vida e do que realmente é bom nela.     

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Cubo de Rubik

"Claro que a conversa é fútil e só te quis comprar um minuto
e querias sentir-te utilizada, eu utilizava para me sentir útil.
Esta jaula tinha aquele cinzento desmotivador
Mas, até no fim, tu tentaste com a persistência que tornou mágico este cubo de Rubik.
Kubrick da TV para a cara. Máquina laranja, pela ferrugem.
Estive parado demasiado tempo, está na hora de dizer adeus às nuvens.
Poucos assumem que (lá) vão os tempos de sonhar alto e voar baixo,
Sentado, relaxo nestas eternas escadas rolantes, enquanto me desfaço.
Tentei e não tenho mais espaço para a última lâmina na garganta.
Não tenho cordas vocais e esta é a única voz que sangra
O meu nome escreve-se com "N" de "Não chores", de "Não adianta"
e de "Nunca tentes investir demasiadas emoções numa planta".
Eu deixei-te plantada, antes que te tornasses na trepadeira
que foi consumida pela cegueira, porque escolheu não ver fronteiras.
Eu organizei o meu espaço, tu tens de organizar umas ideias
e, de caminho, arranja um espaço teu, organiza-o e leva as teias.

Tentei mas não tem espaço. Eu não posso dar mais passos.
Cada vez mais complicado viver aqui dentro, mas ‘tá-se.
Desfaço-me e não sou o único. Eu vou, mas tu vens comigo
até ver qual de nós dois vai conseguir decifrar este cubo de Rubik.
este cubo de Rubik (Rubik) este cubo de Rubik (Rubik)
este cubo de Rubik (Rubik) este cubo de Rubik (Rubik)
este cubo de Rubik (Rubik) este cubo de Rubik (Rubik)
este cubo de Rubik (Rubik) este cubo de Rubik (Rubik)

Sempre que a noite se prolonga é isto. Claro que admitir a derrota é triste.
Eu insisto. Insistes: - "Quem é que se foca nisto?" - E quem é que sufoca nisto?
Por favor não me toques, ouviste?
Conseguiste pôr-me entretido, a cuidar do jardim,
lá fora, à chuva, só para não ter de me cruzar contigo! (e nós temos o jardim mais lindo).
Admito, não sou o teu mais-que-tudo
mas eu sei que sou mais que tu, mesmo quando estou mais baixo que nunca.
Cada vez mais fundo.
Os nossos halos não são compatíveis.
Conversas de mentes inversas causam estragos a todos os níveis.
E ontem, enquanto dormias, contei 55 terríveis maneiras de acabar contigo.
Eu sinto-me ridículo. Isto não é saudável.
Isto assim não dá, não. Apetece moldar.
E se pudesse voltar, então esquece, não estava tão perto.
Tão certo como eu nunca lutar por algo inalcançável.

Tentei mas não tem espaço. Eu não posso dar mais passos.
Cada vez mais complicado viver aqui dentro, mas ‘tá-se.
Desfaço-me e não sou o único, eu vou mas tu vens comigo,
até ver qual de nós dois vai conseguir decifrar este cubo de Rubik.
este cubo de Rubik (Rubik) este cubo de Rubik (Rubik)
este cubo de Rubik (Rubik) este cubo de Rubik (Rubik)
este cubo de Rubik (Rubik) este cubo de Rubik (Rubik)
este cubo de Rubik (Rubik) este cubo de Rubik (Rubik)"

Ouvia isto mil vezes por tua causa. Pelo efeito destrutivo que tinhas em mim. Eras enigma. Eras quebra cabeça. Eras o inalcançável. Eras o desafio da minha vida. Cativaste me como ninguém. E eu virava as faces do cubo ate te tentar compreender... E só te compreendia 0,01%. Apenas um ínfimo de ti. Parecia sempre curto. Parecia sempre pouco. Queria sempre mais. E nao dava para conseguir mais. Nao de ti. E eu ouvia isto a pensar em como eras o meu cubo de Rubik. Inacabado. Inalcançável. E eu fui te pondo de parte. Nao queria mais enigmas, quebras cabeças, ou mistério. Queria algo simples. E os dias passaram. As semanas e os meses foram aumentando a distancia entre nós. E eu deixei te ir. E já nao és o meu cubo de Rubik. Mas o tempo fez me esquecer o bom que e ter um cubo de Rubik. Um enigma. Um mistério. Alguém que me leve a ficar inconformado por saber apenas um ínfimo da pessoa que e. E tu já foste isso. Hoje nao és. Mas amanha quero saber quem será. Pq preciso de um novo cubo de Rubik....

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

3 Jogadas... E uma ida à prisão



Lancei os dados, despreocupado. Saiu cinco. Cinco casas, eu avancei. E uma trivial carta de “Sorte” me saiu.
-“Vai para a prisão dentro de 3 jogadas”

Geralmente não acredito na sorte. E não acreditei naquele momento, naquele jogo que sempre julguei estupido mas que a ingenuidade da idade me levava a jogar. Neste jogo, há quem queira ganhar, quem queira apenas jogar, quem perca sempre, e eu. Eu era essas três coisas ao mesmo tempo, sem saber que um dia me iria magoar por isso.

            Naquele dia, o jogo pouco me interessava. Tinha ficado distraído com uma amiga nova de um distante amigo meu que não via à meses. Em vez de querer ouvir mais uma das entediantes histórias dele, queria saber mais sobre aquela rapariga. Sobre os seus cabelos longos. Sobre os seus lindos olhos castanhos. Imaginava se ela gostava de Arctic Monkeys, filmes ingleses e de séries. Mas naquele momento apenas sabia que ela gostava de vodka. E de sorrir.

            E a noite passou e eu começava a imaginar o que não devia. O álcool e a minha imaginação fértil são uma combinação que me leva para maus caminhos. Que me levam para os seus lábios. Para o seu corpo. E no meio de pensamentos impuros, enquanto me dirigia à cozinha para dar companhia ao meu copo vazio, esbarrei em alguém. Esbarrei nela. No meio de sorrisos e de desculpas, lá me apresentei. Ofereci-lhe um copo de vodka, como já tinha visto que ela gostava.

            Voltamos à sala, e recomeçou o jogo. Jogada um, disseram eles. 

Mas eu não liguei. Com ela sentada ao meu lado, a conversa fluiu. E fluiu. E fluiu. O tempo passou, mas não dei por isso. “Dammit Einstein”, pensei eu. Mas a culpa não era dele. Nem minha. Parece-me obvio de quem era a culpa, e disse-lhe isso mesmo. Ela corou, e sorriu. “Dammit, como aquele sorriso é bonito”, pensei eu. Ou julguei ter pensado, não fosse ela corar de novo, por ter dito aquilo em voz alta.

-“Jogada dois!”- gritou alguém no meio da sala.

Eu adoro os meus amigos, mas gritar daquela maneira por causa de um jogo é triste. Mas a bebida tem dessas coisas. Eu mais que ninguém sei disso. Por mais que uma vez, a bebida levou-me a distorcer o jogo. Mas não naquele momento. 

O tempo ia passando, e eu já tinha desistido. Ela também deixou o jogo. Estávamos num sofá longe de toda a confusão. E qual cliché de filme romântico inglês, ela começou a dizer palavras de forma aleatória só para me fazer rir. Para nos fazer rir. E depois um silêncio sepulcral. “Vamos jogar ao sério”, sugeriu ela. E ficamos imóveis a olhar-nos um ao outro nos olhos. E na minha cabeça começou a dar uma balada qualquer interpretada pelo Alex Turner. E aquele momento foi-se tornando sério. Muito sério. E as nossas cabeças aproximavam-se a um ritmo perigoso. Até que lentamente tudo acalmou… Os nossos lábios se tocaram, e tudo o resto pareceu desaparecer. 

E juro que aquele momento pareceu durar dias, semanas, anos até. Como era bom beijá-la. Como me sentia bem assim. Em paz. Com ela. Jogada numero 3, game over. E naquele momento, fiquei preso. Preso num jogo que não queria jogar… Preso… Preso a ela…