sexta-feira, 13 de março de 2015

Loja fechada. Noite de balanço

Loja fechada. Mais um dia de trabalho concluído. Com o trabalho acabado, balanço do dia é inevitável. Tanto esforço e a nota é pequena. Pequena para os sonhos, tudo o que ele queria.

            Não fui isto que ele tinha idealizado para a sua vida quando era mais pequeno. Na inocência da displicência da idade tudo parecia caminhar certo. Encaixar. Num mundo tão mais fácil e concreto.

            Nesta vida tão dúbia só aquele trabalho lhe parecia certo. As obrigações faziam-no trabalhar como nunca. Os sonhos faziam-no nunca desistir. Aquela promoção, o lugar de sonho tinha que ser seu. E ele só via isso. Trabalhava com afinco, com objectivo de um dia ser mais do que é hoje.

            O caminho para casa parecia sinuoso. As esquinas confundiam-se com as sombras de uma noite fria e despida de pessoas. O ritmo das suas passadas eram o único barulho que se destacava na cidade agora vazia. E ele cabisbaixo pensava em mais um dia de trabalho, mais um dia sem a tão desejada conversa.

            “Será isto tudo? Será isto suficiente?”- pensava ele, cabisbaixo, olhando para a tela do telemóvel com uma qualquer app social aberta.

            Reflectido no seu olhar desabafos de pessoas resumidas a 140 caracteres de cada vez. Desconhecidos “amigos” a contarem a sua vida, enquanto ali estava ele, sozinho na rua, tentando-se ligar ao mundo.

            “Isto tudo é escasso…”- Dizia ele de forma mental, lembrando-se de momentos do secundário. Momentos mais simples.

            Aquele caminho parecia-lhe cada vez maior e tenebroso. A sua casa parecia cada vez mais longe. As ruas menos familiares. Aquela vontade inigualável de lutar e apenas trabalhar desaparecia aos poucos.

            “-Anda comigo! Vamos jantar juntos mais o pessoal!- exclamava entusiasta uma rapariga morena que o puxava pela mão.
- Vá deixa de ser preguiçoso, vai ser divertido!- disse ela chegando ao pé dele-
-Prometo… - disse ela beijando-o na boca em seguida.”  

Abriu os olhos, saindo daquele flashback viciante. Como era boa aquela sensação. “Oxitocina, que filha da puta”, pensava ele, imponente por saber a hormona responsável por aquele estado de felicidade.

A saudade apoderava-lhe a mente. Não a saudade especificamente em relação aquela pessoa mas aquela situação. Aquele momento. Aquela felicidade. Amor, diziam eles. Paixão, dizia ele. Ternura, diria ela certamente com aquele olhar viciante e cativante que o iria fascinar para sempre.

Sentindo-se confuso, parou de caminhar. Sentou-se numa paragem de autocarros aleatória, escolhida por conveniência geográfica. Sentou-se e fechou os olhos.

“Passa a bola, caralho!!!- gritavam-lhe do flanco direito. Ele olhou para o chão e tinha uma bola Nike à sua frente, um adversário faminto, predador voraz querendo-lhe roubar aquele bem precioso. Um drible curto ao estilo do Maestro, como no jogo que ele tinha visto na noite anterior. O defesa ultrapassado, uma oportunidade de alvejar a baliza. Remate colocado, mais em técnica do que em força. O suspense momentâneo em que o seu olhar confunde-se com a trajectória da bola.
-GOLO!!!- gritaram eles, indo em direcção dele, festejando como um golo de Liga dos Campeões. Calduços, poses ridículas imitando Aimar e Saviola, festejos excêntricos de uma alegria extrema.”

-Desculpe, está tudo bem?- perguntou-lhe uma cara bonita, acordando-o daquela recordação em estado hipnótico.

-Na verdade, não sei muito bem se está ou não…- Disse ele entre sorrisos nervosos para conter as lágrimas que forçavam a saída.

-Mas passasse alguma coisa? Precisas que chame alguém? Ajuda?- disse ela, uma rapariga na casa dos 20, ruiva, bem bonitinha.

Ele abanou a cabeça em sinal de negação, deixando o silêncio adensar um clima de tristeza. Ela sentou-se ao pé dele naquela paragem vazia.

Ele pressentia que ela não sabia o que fazer. Ela parecia entrar num dúbio drama de entrar em pânico e chamar toda a ajuda possível e simplesmente desistir e seguir caminho, ignorando toda aquela situação.

A segunda opção ganhou terreno e se transformou em acção, num movimento de despedida, de abandono, levantando-se de forma rápida do banco. E nesse exacto momento, ele agarrou-a pela mão e olhou para ela com os olhos humedecidos das lágrimas há muito contidas.

-Não vás… Chama ajuda… Chama-me à razão…. Porque há muito mais na vida do que aquilo do que luto agora.- Disse ele com a voz trémula.


 -Chama-me à razão, porque desisti da vida para trabalhar de forma incessante, perdendo o significado da palavra vida e do que realmente é bom nela.     

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