domingo, 21 de fevereiro de 2016

Quando acabará a nostalgia e começará o regresso a felicidade?

4 da manhã. O frio na nuca gela-o. Ele dá mais um bafo no cigarro e olha para a garrafa quase vazia de vodka.O olhar no horizonte, como se dali pudessem vir todas as respostas para os seus problemas. 
Apesar de estar sentado na escadaria da velha biblioteca da cidade, ele sentia-se mais inculto que nunca. Confuso. Disperso.

Olhos fechados, e memória a trabalhar:

"-Anda deixa de ser preguiçoso! - disse ela, enquanto se acabava de arranjar.
-Não é preguiça... Apenas podíamos ficar por casa a ver um filme e a fazer algo mais interessante- retorquiu ele abraçando-a pelas costas e dando-lhe um beijo no pescoço.
-Não, nem pensar que o menino pensa que se escapa assim... Vamos sair, estar com os nossos amigos, eles vieram de propósito por .... - dizia ela sendo interrompida por ele que num gesto repentino a pegou ao colo não a deixando acabar a frase.
-Larga-me! Isso é jogo baixo- gritou ela enquanto era atirada para a cama.
-EU... É ... QUE...MANDO...- disse ele interrompendo a frase para a beijar na boca..."

Mais um golo naquele bebida fria. Mais um golo para esquecer. Esquecer o que a vida lhe levou, ao que perdeu, ao que desperdiçou. Definitivamente ele não era um bêbedo feliz naquele momento. Há muito que não o era. Entre bafos de cigarro, assentia com a cabeça em sinal de negação. Com um suspiro escapou-lhe um "como é que fodi isto tudo?".

"-Para que?!?- gritou ela visivelmente enervada, continuando- Para mais uma vez não dares valor às nossas amizades? Dizeres que eles são isto e aquilo?- atirou a mala dela para cima da mesa da sala.
-Amor, só disse o que acho. Eles são um bando de snobs preocupados com aspectos de trintões que ainda não são. Porque me devem eles julgar se sou feliz assim? Feliz contigo e fazendo o que gosto?- respondeu ele, tentando-a acalmar.
-Tu simplesmente gozaste com eles. És um gozão, sabes disso e não te preocupas-te com o que eles pensariam disso!- disse ela descalçando os saltos altos que ele lhe oferecera nos anos.
-Sabes como eu sou, porra! Não vou mudar para agradar aos teus amigos!- gritou ele sendo de imediato interrompido.
-Nossos! Nossos amigos... Ou esqueceste-te de tudo o que passamos juntos no secundário com eles?- interrogou-o com um olhar reprovador.
-Não me fodas... Se eles fossem nossos amigos mesmo, não nos víamos de 3 em 3 meses e não falávamos de coisas aleatórias e não tentavam constantemente vangloriar-se.- disse ele enervado."

Discussões parvas, desabafou ele, acabando finalmente a garrafa de vodka. Preocupei-me demais com quem não devia, e acabei por perder tudo...- continuou ele na saga de tristeza e deprimência.

E ficou novamente a olhar fixamente o horizonte, tentando perceber como dar a volta a tudo. Dar a volta estando na mesma cidade e sem tudo o que um dia teve. 
Mais um cigarro aceso, mais uma memória torturante. Quando acabará a nostalgia e começará o regresso a felicidade?

Sem comentários:

Enviar um comentário