domingo, 8 de maio de 2016

5 da manhã e uma viagem no tempo

O quarto estava escuro, apenas iluminado pela luz emanada do seu computador. Lá fora começavam a cair as primeiras gotas de chuva do dia. Noite. Madrugada. Cerca de 5 da manhã e ele ali permanecia, em frente ao computador. Escrevia sobre amor, sobre ela. Uma rotina já normal para ele num sábado à noite assim que chegava de mais uma saída inconsequente. Do seu hálito transbordava vodka, whisky, cerveja. Qualquer bebida que contivesse álcool servia para ele naquelas noites. Naquelas noites em que ele não servia para ela.

No ecrã do computador crescia uma declaração do seu amor. Um texto nunca lido pela inspiração do mesmo. Este desapego não o demovia. Pelo contrário, ele lutava e continuava a insistir naquela história interrompida. Interrompida como a conversa séria entre ambos pela nova crush dela ou aquela curte atrás das oficinas da escola. 8 ou 80. Corda bamba. E mesmo assim ele não desistia.

Seria o álcool a falar, interrogava-se ele. Bem e sóbrio é que ele não estava. Mas continuava, escrevendo como se não houvesse amanhã. Como se ela fosse a única e mais bela mulher do mundo. Como se o amor fosse lindo.

O corpo dele foi sacudido por um forte arrepio, começando na nuca e vagueando por todo o seu corpo, petrificando-o. Frio. Corpo gelado e abandonado. Que óptima sensação para se ter numa noite de chuva, pensou ele. Mas depressa esse fio de pensamento desapareceu por mais uma onda arrepiante de frio. 

Depois de uma volta pela casa, o mistério era explicado por uma janela estranhamente aberta. O álcool não o fazia ver malícia na situação, fechando a origem dos seus problemas. Como seria fácil se tudo fosse tão fácil de resolver, pensou ele.

Voltou a sentar-se em frente daquele computador inundado de palavras sem sentido como o amor. "Porque amor não é lógico ou racional, é simples como um beijo e complexo como o cocktail de hormonas que é..." Escrevia ele, sendo interrompido por uma força a agarra-lo contra a parede fria do quarto. Ele resistia, tentava responder aquele ataque hediondo. Um rapaz um pouco mais alto do que ele empurrava-o contra a parede, esbofeteando-o e desferindo murros aleatórios contra ele. Ele resistia, tentava sair dali, gritar, fazê-lo parar. 

E de repente tudo parou, a pessoa agarrou-o pela cabeça e sussurrou " Calma, só quero falar contigo".

A voz calma e serena assustava-o. O amargo sabor do sangue na sua boca, despertava-o, mas o álcool fazia com que tudo parecesse mais lento, menos real, como um sonho. Até que finalmente disse algo.

-Quem és tu?- disse intrigado.
-Tanta ingenuidade, não me reconheces?- disse o misterioso rapaz, continuando- eu sou tu, o teu futuro.
-Porque o ataque? Porque as tantas cicatrizes na tua cara?- perguntou ingénuo
-Perguntas erradas, meu caro- respondeu sereno aquela personagem, continuando- vou te dar uns conselhos, ouve apenas- começando um monólogo.

"Pára de lhe escrever, ela não vale a pena. Na verdade nenhuma vai valer a pena. Esquece o amor. Só te fode. Esquece as surpresas românticas, os serões apaixonados e as noites calmas na cama com ela. Esquece-a. A ela. À próxima. E à outra futura também. Parabéns meu filho! Tu foste contemplado com a lotaria de o amor não é para ti. Esquece porque tu não te enquadras aqui. Já não se escreve. É antiquado. A nova demonstração de amor é um snap da tua pila e tu; tu não és assim. És o eterno nice guy. Aquele bom partido que as sogras veneram e as filhas desprezam. Mas tem calma. Tu vais crescer, deixar de ser assim. Vais deixar de sonhar. De querer algo grandioso. Vais te acomodar. Acabar assim.... Talvez... Talvez ainda haja solução para ti. Esquece o amor. Concentra-te nos estudos. Sê doutor como a família deseja. Não... Não... Sê piloto, abre as asas para ti. Eles recebem bem e sempre podias viver fora daqui. Podias ambicionar aquela casa na praia que agora desejas. Sem ela. Sim... Sem ela. Sem o amor da tua vida. O amor só te fode. Mas dude, a vida é assim... Ei, sempre terás os teus amigos. Aqueles amigos que agora fazem o secundário contigo. Sim, eles estarão lá sempre para ti! Ops... Menti, não queria ser assim. Queria te ajudar. Ajudar-nos. Fazer algo por ti... Olha o teu estado! Bêbado, acordado na madrugada. Vais parar de beber. Sim, tens de parar de beber! Agora senta-te e bebe mais um copo comigo para juntos descobrir-mos uma solução para ti. Ainda há futuro! Haverá futuro? Futuro para ti? Para mim? ... Como tenho saudades dela..."

E com a velocidade da sua chegada, desapareceu. Puf! Aquela pessoa. Ele, no futuro. Seria, interrogava-se ele. O misticismo permanecia no ar. Ele sentado no chão frio do quarto, com uma garrafa vazia ao seu lado. Ela não estava ali. O sangue que sentia na sua boca até então desaparecera. 

Aquele suspense desvaneceu, evaporado por uma nova luz no quarto. Esta vinha do seu telemóvel. Uma mensagem. No ecrã aparecia um texto. "Estás acordado? Estava a pensar em ti. Fiquei preocupada por ires embora assim. Quero te bem." O destinatário era a razão da sua insónia. Daqueles textos do início, lembram-se? 

E contra todas as expectativas, ele apenas apagou a mensagem. Ignorou-a. Era a vez de ser a ele a ir do 8 ao 80. Porque não podia responder. Porque tinha que mudar. Porque o amor.... O amor só te fode.  





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