quarta-feira, 2 de julho de 2014

Ninguém percebe




A vida dá muitas voltas. E meia volta, tu acabas a desabafar com alguém. Em comum com 7 biliões de pessoas e biliões de biliões de conversas, esses desabafos têm a desilusão de algo não ter sido como o esperado. O choque entre realidade e expectativas sempre foi uma alegoria que causou ao longo do tempo inúmeros feridos. Esse choque será sempre razão de desilusão e desabafos, de choro e de gritos, de fim de esperança e de início de decepção.

No meio do choro, e entre os corpos de mais uma expectativa furada, desabafamos sobre mais uma página negra do grande livro que é a vida. Podemos queixarmo-nos de amor, de amizade, do que já foi e não volta a ser, de dinheiro, das condições de vida. A vida tem um conjunto de circunstâncias e caminhos sinuosos que por vezes nos deitam a baixo e fazem-nos duvidar de tudo.

E do outro lado, está um ouvinte atento que analisa cuidadosamente todas as palavras que lhe são dirigidas. Mentalmente, ele tenta compreender e analisar a nossa situação. E todo um mundo de emoções vai passando de nós para a pessoa que se encontra à nossa frente.  E o mundo pára no instante em que ele abre a boca e solenemente diz de sua justiça. E o reconforto e ânimo que esperamos ali encontrar logo se esfumam quando a resposta do outro lado é um simples “eu percebo bem o que isso é” ou um frio e distante “sinto o mesmo”.

E aquele reconforto que esperávamos voa sem direcção. Pensamos que a nossa situação não é virgem, não é a calamidade que julgávamos ser capaz de nos mandar a baixo. Mas como serão eles capazes de perceber toda a complexidade da nossa interacção com o motivo de dor e sofrimento?

E começamos com a sensação que o apoio que esperávamos receber também ele era uma falsa expectativa. Mais um motivo de tristeza. Ficamos mais sós, e evitamos desabafar. Porque seja qual for o motivo da nossa tristeza, as pessoas podem tentar perceber mas nunca o fazem na realidade. Porque só quem está a viver a situação e que sabe o sofrimento pelo qual está a passar, a angústia que tem que combater, a força que tem que ter para continuar a lutar. Porque na realidade ninguém percebe.

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