Vício. Eis uma palavra que na
realidade não percebo. Um vício pode ser um defeito. Um defeito nocivo,
prejudicial para a nossa vida. E um vício pode ser de uma coisa qualquer.
Álcool, drogas, jogo. Tudo o que se possa imaginar pode virar vício. Mas será isso
uma coisa necessariamente má?
É que
tudo pode ser viciante. Desde uma substância, a um momento, a uma pessoa. E
quantas pessoas já entraram nas nossas vidas e viciaram-nos nelas? Todos nós já
passamos por isto. Pessoas que entram nas nossas vidas e as tornam diferentes.
Com mais excitação, mais cor.
E no
meu mundo cinzento, essa cor foi dada por pessoas especiais. Não digo isto com
qualquer tipo de compaixão ou sentimentalismo freudiano por pessoas que no meu
passado foram tudo. Digo isto, porque realmente essas pessoas eram especiais.
Nunca saberei se elas, um dia, iram saber o quanto eu as acho especiais. Talvez
não lhes tenha dito as vezes suficientes. Talvez devia ter dito mais, até
naqueles momentos de silêncio em que apenas o olhar fala.
Mas passado
é passado. Remorsos não farão de mim melhor pessoa. E tudo o que passei com
essas pessoas especiais não passa de um vício que larguei com o passar do
tempo. De um vício que passou com mais ou menos dificuldade, com e sem a minha
vontade. E como todos os vícios, cai na tentação, amei a sensação que o vício
me dava, sofri, renasci. E o quanto sofri por amar aquela sensação de vício…
Mas o
vício já não mora aqui. Já não me vício como dantes. Já nada me parece
“agarrar”. Já nada parece dar a cor necessária ao meu mundo baço e escasso. Já
não existe a sensação de euforia de estar viciado. E no meio deste estado de
cura, sinto-me doente. Não sinto o vício a correr-me nas veias. Não sinto
aquele frio na barriga ao receber uma mensagem. Aquele nó na garganta que me
impede de falar fluentemente e fazer-me parecer um idiota em frente aquela
pessoa. Não sinto borboletas antes de ir ter com ela. Ninguém me faz sentir
assim. E não é o tempo investido que muda isso. Não é prender-me e aprender a
gostar. Isso não resulta, porque não há ninguém especial que me vicie.
E o
tempo passa. Mato a saudade que vai aumentando no quarto mas nada me desperta.
Tudo isto porque agora é difícil encontrar alguém que me vicie, a solução é
ficar calmíssimo até à calvície grisalha.
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