Lancei os dados, despreocupado. Saiu cinco. Cinco casas, eu
avancei. E uma trivial carta de “Sorte” me saiu.
-“Vai para a prisão dentro de 3 jogadas”
Geralmente não acredito na sorte.
E não acreditei naquele momento, naquele jogo que sempre julguei estupido mas
que a ingenuidade da idade me levava a jogar. Neste jogo, há quem queira
ganhar, quem queira apenas jogar, quem perca sempre, e eu. Eu era essas três
coisas ao mesmo tempo, sem saber que um dia me iria magoar por isso.
Naquele dia, o jogo pouco me
interessava. Tinha ficado distraído com uma amiga nova de um distante amigo meu
que não via à meses. Em vez de querer ouvir mais uma das entediantes histórias
dele, queria saber mais sobre aquela rapariga. Sobre os seus cabelos longos.
Sobre os seus lindos olhos castanhos. Imaginava se ela gostava de Arctic
Monkeys, filmes ingleses e de séries. Mas naquele momento apenas sabia que ela
gostava de vodka. E de sorrir.
E a noite
passou e eu começava a imaginar o que não devia. O álcool e a minha imaginação
fértil são uma combinação que me leva para maus caminhos. Que me levam para os
seus lábios. Para o seu corpo. E no meio de pensamentos impuros, enquanto me
dirigia à cozinha para dar companhia ao meu copo vazio, esbarrei em alguém.
Esbarrei nela. No meio de sorrisos e de desculpas, lá me apresentei. Ofereci-lhe
um copo de vodka, como já tinha visto que ela gostava.
Voltamos à
sala, e recomeçou o jogo. Jogada um, disseram eles.
Mas eu não liguei. Com ela
sentada ao meu lado, a conversa fluiu. E fluiu. E fluiu. O tempo passou, mas
não dei por isso. “Dammit Einstein”, pensei eu. Mas a culpa não era dele. Nem
minha. Parece-me obvio de quem era a culpa, e disse-lhe isso mesmo. Ela corou,
e sorriu. “Dammit, como aquele sorriso é bonito”, pensei eu. Ou julguei ter
pensado, não fosse ela corar de novo, por ter dito aquilo em voz alta.
-“Jogada dois!”- gritou alguém no
meio da sala.
Eu adoro os meus amigos, mas
gritar daquela maneira por causa de um jogo é triste. Mas a bebida tem dessas
coisas. Eu mais que ninguém sei disso. Por mais que uma vez, a bebida levou-me
a distorcer o jogo. Mas não naquele momento.
O tempo ia passando, e eu já
tinha desistido. Ela também deixou o jogo. Estávamos num sofá longe de toda a
confusão. E qual cliché de filme romântico inglês, ela começou a dizer palavras
de forma aleatória só para me fazer rir. Para nos fazer rir. E depois um
silêncio sepulcral. “Vamos jogar ao sério”, sugeriu ela. E ficamos imóveis a
olhar-nos um ao outro nos olhos. E na minha cabeça começou a dar uma balada
qualquer interpretada pelo Alex Turner. E aquele momento foi-se tornando sério.
Muito sério. E as nossas cabeças aproximavam-se a um ritmo perigoso. Até que
lentamente tudo acalmou… Os nossos lábios se tocaram, e tudo o resto pareceu
desaparecer.
E juro que aquele momento pareceu
durar dias, semanas, anos até. Como era bom beijá-la. Como me sentia bem assim.
Em paz. Com ela. Jogada numero 3, game over. E naquele momento, fiquei preso.
Preso num jogo que não queria jogar… Preso… Preso a ela…
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