terça-feira, 15 de abril de 2014

Aquele vício




Acorda mais uma vez sem saber onde está. A sensação não era novidade, mas vai contra a negação constante que ele fazia contra o seu vício. A dor de cabeça retira-lhe o raciocínio que já de si é pouco. Corpo nu, coberto apenas por um lençol. Olha em meu redor e vejo mais uma pessoa na cama. Levanta-se devagar sem fazer barulho. Encaminha-se para a casa de banho do quarto, que tinha a porta entreaberta. Lava a cara com água fria, numa clara tentativa de lavar também toda aquela sensação de culpa que o invadia. 

            Invadido pela culpa, por mais uma recaída no álcool, seu velho e longo amigo. No entanto, a culpa misturava-se com intriga. Que se tinha passado na noite anterior, onde estava, com quem estava, tantas perguntas sem resposta. Vestiu-se lentamente, silenciosamente como nos filmes.

            De repente, uma voz calma e doce interrompeu toda aquela cena cliché que ali se desenrolava. Ele olhou para a cama e viu uma mulher loira, de pele clara que outrora dormia, acordada e com um sorriso nos lábios. Olhou-a nos olhos. Aqueles lindos e doces olhos castanhos, fizeram-no lembrar da noite anterior. 

            Uma noite em que no meio de viagens constantes ao balcão, de copos vazios e cheios, aqueles lindos olhos castanhos o fizeram ficar por lá. E de todas as conversas que se passaram, desde o típico quebra-gelo para por conversa, até ás conversas intimas sobre o que sentiam. 

            No final de toda esta recordação em forma de flashback, ele debruça-se sobre a cama para a beijar, numa vontade incontrolável que o levava a beijar alguém que à segundos atrás era para ele uma completa estranha. Beijou-a, a sua mão acariciou-lhe a face, afastando o seu cabelo longo e pondo-o atrás da orelha. E no meio de todo aquele momento carinhoso, ele para, ficando imóvel. Olhar fixo na mão esquerda dela. Aliança no dedo. Ela era casada. E de repente todas aquelas recordações se transformam em aversão.

Saiu de casa dela, sem rumo ou direcção, apenas movido por um sentimento de culpa destruidor. Mas os minutos passam, as horas acalmam-no, os dias fazem a culpa passar ficando apenas o desejo.

            Toca a campainha, ela abre a porta. Ele olha-a nos olhos e beija-a porque naquela noite, o álcool deixou de ser o seu maior vício.

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