Acorda mais uma vez sem saber
onde está. A sensação não era novidade, mas vai contra a negação constante que
ele fazia contra o seu vício. A dor de cabeça retira-lhe o raciocínio que já de
si é pouco. Corpo nu, coberto apenas por um lençol. Olha em meu redor e vejo mais
uma pessoa na cama. Levanta-se devagar sem fazer barulho. Encaminha-se para a
casa de banho do quarto, que tinha a porta entreaberta. Lava a cara com água
fria, numa clara tentativa de lavar também toda aquela sensação de culpa que o invadia.
Invadido
pela culpa, por mais uma recaída no álcool, seu velho e longo amigo. No
entanto, a culpa misturava-se com intriga. Que se tinha passado na noite
anterior, onde estava, com quem estava, tantas perguntas sem resposta. Vestiu-se
lentamente, silenciosamente como nos filmes.
De repente,
uma voz calma e doce interrompeu toda aquela cena cliché que ali se desenrolava.
Ele olhou para a cama e viu uma mulher loira, de pele clara que outrora dormia,
acordada e com um sorriso nos lábios. Olhou-a nos olhos. Aqueles lindos e doces
olhos castanhos, fizeram-no lembrar da noite anterior.
Uma noite
em que no meio de viagens constantes ao balcão, de copos vazios e cheios,
aqueles lindos olhos castanhos o fizeram ficar por lá. E de todas as conversas
que se passaram, desde o típico quebra-gelo para por conversa, até ás conversas
intimas sobre o que sentiam.
No final de
toda esta recordação em forma de flashback, ele debruça-se sobre a cama para a
beijar, numa vontade incontrolável que o levava a beijar alguém que à segundos
atrás era para ele uma completa estranha. Beijou-a, a sua mão acariciou-lhe a
face, afastando o seu cabelo longo e pondo-o atrás da orelha. E no meio de todo
aquele momento carinhoso, ele para, ficando imóvel. Olhar fixo na mão esquerda
dela. Aliança no dedo. Ela era casada. E de repente todas aquelas recordações se
transformam em aversão.
Saiu de casa dela, sem rumo ou
direcção, apenas movido por um sentimento de culpa destruidor. Mas os minutos
passam, as horas acalmam-no, os dias fazem a culpa passar ficando apenas o
desejo.
Toca a campainha, ela abre a porta.
Ele olha-a nos olhos e beija-a porque naquela noite, o álcool deixou de ser o
seu maior vício.
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