O sol encadeava-o. Ele sentia
areia na sua boca. Sentia o corpo pesado, tornando hercúlea a missão de se
levantar. Olhou para as suas mãos cobertas de cortes e pequenas queimaduras,
queimaduras e cortes que se estendiam a todo o corpo. Sentia um ardor no sobreolho.
Instintivamente levou a mão a essa zona. Sangue. Um corte mais profundo do que
todos os outros, sobreolho aberto. Finalmente alargou o seu olhar em seu redor.
Destroços em volta. Motores em chamas, uma asa de avião partida e enterrada na
areia. Corpos, ou o que restava deles.
O seu pensamento estava
incoerente, mas ele facilmente percebera que tudo aquilo era parte de um
despenhamento de um avião. Um avião caiu e ele sobrevivera. Mas ele quem? Ele
tentava lembrar se de quem era, de qual era o seu nome, do aspecto da sua casa.
O maior pânico no meio de um acidente tão grande, não é o acidente em si, é não
saberes quem és tu no meio de toda aquela confusão. A dor dificultava o
raciocínio já por si confuso. Olhou para si. Roupa casual. Primeira hipótese
excluída, não era piloto nem fazia parte da tripulação. Mas de uma certeza, a
sua mente pulou imediatamente para um mar de incertezas. Se estava no avião
como passageiro, ele podia ser tudo. Seria ele um bom rapaz que trabalha? Ou um
egoísta que passa por cima de todos sem olhar a meios para atingir os seus
fins? Teria família, alguém que sentisse a sua falta? Ou seria daquelas pessoas
em que o seu desaparecimento não e notado? E pior de tudo, seria ele a causa de
o avião ter caído, de toda aquela confusão?
Confuso, baralhado com um
pensamento incoerente, o seu primeiro instinto foi sair de toda aquela
confusão. Pegou numa mochila que estava junto a um corpo e tentou enche-la com
tudo o que lhe parecia importante na altura. E sem pensar duas vezes, saiu em
direcção ao desconhecido naquele deserto, apenas querendo sair do meio de toda
aquela confusão.
O calor era infernal, a areia e o
seu corpo marcado por todo aquele acidente dificultavam a locomoção. A
travessia do deserto era dolorosa, insuportável. Tão insuportável como a ideia
de não saber quem era ele na verdade. Os minutos passavam a horas, horas a
dias. Ele continuava perdido, sem saber quem era, sem encontrar qualquer tipo
de contacto humano que o salvasse. A água já era uma simples miragem, e ele
sabia que assim tudo estaria mais perto do fim.
O seu corpo sucumbiu às dores e a
desidratação. Caiu na areia, desamparado. De novo aquela sensação de areia na
boca. De tudo estar perdido. Os seus últimos esforços estavam focados na
descoberta do seu verdadeiro ser. E enquanto as forças pareciam falhar, ele
lembrou todos aqueles corpos que tinha visto no meio daquela confusão. E de
repente, um flashback. Lembrou-se de todos os que tinha deixado para trás. De
quem era, do seu nome. E lembrara-se que no meio daquela confusão tinham ficado
muitos conhecidos. Pessoas de quem ele iria ter saudades.
Ele lutava para manter os olhos
abertos, a sua mente consciente. Começou a sentir pingos de água no seu corpo.
Chuva. Chuva no deserto, é claramente um milagre, um sinal de que nem tudo está
perdido. E ele conseguira levantar-se, como se a chuva recarregasse o seu corpo
e agora ele estivesse cheio de energia. E ele continuou a sua jornada, a andar
para longe da confusão, há procura de salvação. Porque toda a confusão, só
fecha um capítulo da tua vida. Porque toda a confusão apenas te transforma.
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