quarta-feira, 9 de abril de 2014

Travessia no deserto




O sol encadeava-o. Ele sentia areia na sua boca. Sentia o corpo pesado, tornando hercúlea a missão de se levantar. Olhou para as suas mãos cobertas de cortes e pequenas queimaduras, queimaduras e cortes que se estendiam a todo o corpo. Sentia um ardor no sobreolho. Instintivamente levou a mão a essa zona. Sangue. Um corte mais profundo do que todos os outros, sobreolho aberto. Finalmente alargou o seu olhar em seu redor. Destroços em volta. Motores em chamas, uma asa de avião partida e enterrada na areia. Corpos, ou o que restava deles. 

O seu pensamento estava incoerente, mas ele facilmente percebera que tudo aquilo era parte de um despenhamento de um avião. Um avião caiu e ele sobrevivera. Mas ele quem? Ele tentava lembrar se de quem era, de qual era o seu nome, do aspecto da sua casa. O maior pânico no meio de um acidente tão grande, não é o acidente em si, é não saberes quem és tu no meio de toda aquela confusão. A dor dificultava o raciocínio já por si confuso. Olhou para si. Roupa casual. Primeira hipótese excluída, não era piloto nem fazia parte da tripulação. Mas de uma certeza, a sua mente pulou imediatamente para um mar de incertezas. Se estava no avião como passageiro, ele podia ser tudo. Seria ele um bom rapaz que trabalha? Ou um egoísta que passa por cima de todos sem olhar a meios para atingir os seus fins? Teria família, alguém que sentisse a sua falta? Ou seria daquelas pessoas em que o seu desaparecimento não e notado? E pior de tudo, seria ele a causa de o avião ter caído, de toda aquela confusão?

Confuso, baralhado com um pensamento incoerente, o seu primeiro instinto foi sair de toda aquela confusão. Pegou numa mochila que estava junto a um corpo e tentou enche-la com tudo o que lhe parecia importante na altura. E sem pensar duas vezes, saiu em direcção ao desconhecido naquele deserto, apenas querendo sair do meio de toda aquela confusão.

O calor era infernal, a areia e o seu corpo marcado por todo aquele acidente dificultavam a locomoção. A travessia do deserto era dolorosa, insuportável. Tão insuportável como a ideia de não saber quem era ele na verdade. Os minutos passavam a horas, horas a dias. Ele continuava perdido, sem saber quem era, sem encontrar qualquer tipo de contacto humano que o salvasse. A água já era uma simples miragem, e ele sabia que assim tudo estaria mais perto do fim. 

O seu corpo sucumbiu às dores e a desidratação. Caiu na areia, desamparado. De novo aquela sensação de areia na boca. De tudo estar perdido. Os seus últimos esforços estavam focados na descoberta do seu verdadeiro ser. E enquanto as forças pareciam falhar, ele lembrou todos aqueles corpos que tinha visto no meio daquela confusão. E de repente, um flashback. Lembrou-se de todos os que tinha deixado para trás. De quem era, do seu nome. E lembrara-se que no meio daquela confusão tinham ficado muitos conhecidos. Pessoas de quem ele iria ter saudades. 

Ele lutava para manter os olhos abertos, a sua mente consciente. Começou a sentir pingos de água no seu corpo. Chuva. Chuva no deserto, é claramente um milagre, um sinal de que nem tudo está perdido. E ele conseguira levantar-se, como se a chuva recarregasse o seu corpo e agora ele estivesse cheio de energia. E ele continuou a sua jornada, a andar para longe da confusão, há procura de salvação. Porque toda a confusão, só fecha um capítulo da tua vida. Porque toda a confusão apenas te transforma.

Sem comentários:

Enviar um comentário