terça-feira, 23 de setembro de 2014

O ladrão do carrinho de brincar



O sol cai no céu com a mesma velocidade frenética com que a vida passa na cidade. A noite chega, e os compromissos acabam, com o fim de mais um dia de trabalho. E eis que enquanto reflectia no absurdo esforço que realizou mais um dia, o telefone tocou.

- Alllllllllllôôô!!! Sempre queres sair hoje?- disse uma voz angelical entre sorrisos.

Ele não estava muito na disposição de sair… Ela insistiu.

-Vem sair comigo! Vá lá que nunca sai na cidade contigo…

-Ahh… Ok, convenceste-me- disse ele entre risos. 

Na verdade não era a primeira vez que a voz angelical dela o convencia, e certamente não seria a última. Impressionante como as pessoas de quem gostamos tem este efeito em nós, serem capaz de nos convencer a sair de casa mesmo cansados.  

A espera por ela seria encarada por estranhos, como uma entre tantas outras. Aquele encontro em que a espera aumenta o desejo. Em que imaginamos mil e uma vez como a outra pessoa está bonita, e estará tão bem nos nossos braços, naquele abraço apertado que faz parar o mundo. Mas não era o que se ali passava. Aquela relação não passava de amizade. De amizade não poderia passar quando existe outro coração em jogo. 

Entre pensamentos e devaneios, ela chegou mais umas amigas. Provavelmente, ela não seria a primeira a ser notada no grupo, ela não gosta de chamar à atenção. Ela não precisa disso devido a uma confiança que resiste a tudo. E entre comprimentos, apresentações e os beijos da praxe, o que fica na memória é aquele abraço apertado dela. Aquele abraço que eu tento não gostar. Não posso gostar. Não quando há mais em jogo.

A noite foi avançando, o nivel de alcoolemia aumentando e o grupo diminuindo. São 4 da manhã. Talvez 5, o meu raciocínio não está tão logico como eu gostaria que estivesse, e isso é sinal de perigo. E eis que momentaneamente perco me das poucas pessoas que me seguiam. Que nos seguiam. E aqui estamos nós, sozinhos numa ruela qualquer desta enorme e maldita cidade.

E a sombra dela aproximava-se da minha. E o meu pensamento fugia para algo impuro.
- Protege-me, tenho medo do escuro- disse ela em jeito de brincadeira, abraçando o meu corpo.

Eu ri-me olhando para ela. E ela olhou para mim. E naquele momento o mundo parou. O meu raciocínio dizia perigo, o meu coração dizia desejo. Fomos nos aproximando, até que os lábios dela tocaram nos meus. 

Beijo. Há muitos tipos de beijo. Mas aquele tinha algo de especial. Era desejo, era paixão, era loucura. Era algo mais. Até que se tornou em arrependimento.

- Desculpa, não posso continuar… - disse ele

-Porque?- respondeu ela meio triste.

-Sabes, o meu dia mais triste de infantário foi quando roubei o carrinho de brincar que o meu melhor amigo gostava. Ele ficou muito zangado comigo, e toda a gente disse que eu era um mau menino, que era o ladrão do carrinho de brincar. Não quero que isso volte a acontecer.- disse ele enquanto olhava para o vazio, apenas falando.

-Eu sei do que falas. Eu conheço os dois. Mas é a ti que estou a beijar, não a ele. És tu quem eu quero, não ele. – disse ela enquanto lhe fazia uma carícia no rosto.

E continuou: - Não és má pessoa por lutar pela tua felicidade. Pela nossa felicidade.- disse ela dando lhe a mão.

Ele olhou para ela, e os olhos dela transbordavam emoção. Aquele olhar doce mais uma vez o tinha conquistado. E as sombras voltaram se a encontrar. Fundiram-se numa só, até desaparecerem na escuridão. Porque nesse dia, ele voltou a ser o ladrão do carrinho de brincar.    

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