O sol cai no céu com a mesma velocidade
frenética com que a vida passa na cidade. A noite chega, e os compromissos
acabam, com o fim de mais um dia de trabalho. E eis que enquanto reflectia no
absurdo esforço que realizou mais um dia, o telefone tocou.
- Alllllllllllôôô!!! Sempre queres sair hoje?- disse uma voz
angelical entre sorrisos.
Ele não estava muito na
disposição de sair… Ela insistiu.
-Vem sair comigo! Vá lá que nunca sai na cidade contigo…
-Ahh… Ok, convenceste-me- disse ele entre risos.
Na verdade não era a primeira vez
que a voz angelical dela o convencia, e certamente não seria a última.
Impressionante como as pessoas de quem gostamos tem este efeito em nós, serem
capaz de nos convencer a sair de casa mesmo cansados.
A espera por ela seria encarada
por estranhos, como uma entre tantas outras. Aquele encontro em que a espera
aumenta o desejo. Em que imaginamos mil e uma vez como a outra pessoa está
bonita, e estará tão bem nos nossos braços, naquele abraço apertado que faz
parar o mundo. Mas não era o que se ali passava. Aquela relação não passava de
amizade. De amizade não poderia passar quando existe outro coração em jogo.
Entre pensamentos e devaneios,
ela chegou mais umas amigas. Provavelmente, ela não seria a primeira a ser
notada no grupo, ela não gosta de chamar à atenção. Ela não precisa disso devido
a uma confiança que resiste a tudo. E entre comprimentos, apresentações e os
beijos da praxe, o que fica na memória é aquele abraço apertado dela. Aquele abraço
que eu tento não gostar. Não posso gostar. Não quando há mais em jogo.
A noite foi avançando, o nivel de
alcoolemia aumentando e o grupo diminuindo. São 4 da manhã. Talvez 5, o meu raciocínio
não está tão logico como eu gostaria que estivesse, e isso é sinal de perigo. E
eis que momentaneamente perco me das poucas pessoas que me seguiam. Que nos
seguiam. E aqui estamos nós, sozinhos numa ruela qualquer desta enorme e
maldita cidade.
E a sombra dela aproximava-se da
minha. E o meu pensamento fugia para algo impuro.
- Protege-me, tenho medo do escuro- disse ela em jeito de
brincadeira, abraçando o meu corpo.
Eu ri-me olhando para ela. E ela
olhou para mim. E naquele momento o mundo parou. O meu raciocínio dizia perigo,
o meu coração dizia desejo. Fomos nos aproximando, até que os lábios dela
tocaram nos meus.
Beijo. Há muitos tipos de beijo.
Mas aquele tinha algo de especial. Era desejo, era paixão, era loucura. Era
algo mais. Até que se tornou em arrependimento.
- Desculpa, não posso continuar… - disse ele
-Porque?- respondeu ela meio triste.
-Sabes, o meu dia mais triste de infantário foi quando
roubei o carrinho de brincar que o meu melhor amigo gostava. Ele ficou muito
zangado comigo, e toda a gente disse que eu era um mau menino, que era o ladrão
do carrinho de brincar. Não quero que isso volte a acontecer.- disse ele
enquanto olhava para o vazio, apenas falando.
-Eu sei do que falas. Eu conheço os dois. Mas é a ti que
estou a beijar, não a ele. És tu quem eu quero, não ele. – disse ela enquanto
lhe fazia uma carícia no rosto.
E continuou: - Não és má pessoa por lutar pela tua
felicidade. Pela nossa felicidade.- disse ela dando lhe a mão.
Ele olhou para ela, e os olhos
dela transbordavam emoção. Aquele olhar doce mais uma vez o tinha conquistado.
E as sombras voltaram se a encontrar. Fundiram-se numa só, até desaparecerem na
escuridão. Porque nesse dia, ele voltou a ser o ladrão do carrinho de brincar.
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