“-Não digas nem uma
palavra. Não quero ouvir a tua suave voz que me acalma. Não me olhes com esse
olhar meigo e querido. O mesmo olhar por o qual me apaixonei. Simplesmente
presta atenção, pois é tanta a dor com que faço isto que me seria impossível de
voltar a fazê-lo.”
A voz saia embargada, com pequenas falhas. Na verdade,
parecia a voz de um miúdo pequeno triste, perto de chorar porque perdeu o seu
brinquedo preferido. De facto, ele sentia-se um miúdo prestes a perder o seu
brinquedo favorito. Os sentimentos sobrepunham-se a razão e ao discurso que ele
tantas vezes tinha ensaiado em casa. O silêncio impôs….
“ – O que me queres dizer?”- disse ela com
preocupação
“-Por favor, não digas
nada”…. Disse ele enquanto começava a chorar. Homem não chora, e não posso
parecer fraco agora, pensou ele.
"- Eu sei que não gostas que fale no que sinto,
dizes que ficas constrangida. Na verdade não percebo porque ficas constrangida.
Uma rapariga bonita e inteligente como tu tem que estar habituada a ser a
protagonista em qualquer história. Mas tenho que te dizer que para mim acabou.
Acabou, não consigo mais lutar. É insuportável esta dor que sinto por na
verdade não te ter. Esta máscara de que esta tudo bem, quando não esta, tem de
cair. Amo-te mas é insuportável, estar contigo e não poder dizer-te como me
sinto, abraçar-te, compreender-te, tocar-te, trocar juras de amor eterno,
beijar-te, apoiar-te, tornar-te feliz… Por isso tudo, acabou. Tudo isto não
passa de um desejo platónico e inconsequente, um devaneio de quem não está
completamente racional ou lógico. Percebo que no amor não haja racionalidade ou
lógica, mas de uma forma fria podemos ver que isto estava destinado a não
acontecer.
Tenho que desistir, seguir em frente para poder ser
feliz. Como não o sou há muito tempo. E…Feliz…é acima de tudo o que eu quero,
que sejas feliz. A tua felicidade e o mais importante nesta vida. E tu podes
ser feliz sem mim, já o és, agora é a minha vez de o tentar ser, mas para isso
tenho que desistir de lutar, dizer que acabou, fechar a porta que se manteve
entreaberta durante tanto tempo.
Um dia desejei que fosses o
meu futuro, quando hoje em dia apenas quero que sejas o meu passado. Uma
memória, apesar de tudo feliz, com a qual eu possa recordar com um sorriso nos
lábios e uma nostalgia inconsequente.
Gosto e sempre gostarei de
ti, mas o futuro reserva-nos outras pessoas e a felicidade daí adjacente. Gosto
de ti, mas esta é a despedida.”
Ele levantou a cabeça, o seu olhar encontrou o dela.
Aquele olhar sereno que o acalmava, estava agora humedecido por lágrimas e
transformado num olhar fraternal e de compaixão. Ela levantou a mão e acariciou
a face dele. Ele agarrou na sua mão, beijou-a e deixou-a cair. Era o fim, o
equivalente a deitar a toalha ao chão no boxe. Ele sabia que era para o seu
melhor. Virou costas, e andou sem rumo ou razão, deixando quem um dia disse
nunca abandonar, exausto de tanto lutar.
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