domingo, 23 de fevereiro de 2014

A despedida


“-Não digas nem uma palavra. Não quero ouvir a tua suave voz que me acalma. Não me olhes com esse olhar meigo e querido. O mesmo olhar por o qual me apaixonei. Simplesmente presta atenção, pois é tanta a dor com que faço isto que me seria impossível de voltar a fazê-lo.”

A voz saia embargada, com pequenas falhas. Na verdade, parecia a voz de um miúdo pequeno triste, perto de chorar porque perdeu o seu brinquedo preferido. De facto, ele sentia-se um miúdo prestes a perder o seu brinquedo favorito. Os sentimentos sobrepunham-se a razão e ao discurso que ele tantas vezes tinha ensaiado em casa. O silêncio impôs….

 “ – O que me queres dizer?”- disse ela com preocupação

“-Por favor, não digas nada”…. Disse ele enquanto começava a chorar. Homem não chora, e não posso parecer fraco agora, pensou ele.

"- Eu sei que não gostas que fale no que sinto, dizes que ficas constrangida. Na verdade não percebo porque ficas constrangida. Uma rapariga bonita e inteligente como tu tem que estar habituada a ser a protagonista em qualquer história. Mas tenho que te dizer que para mim acabou. Acabou, não consigo mais lutar. É insuportável esta dor que sinto por na verdade não te ter. Esta máscara de que esta tudo bem, quando não esta, tem de cair. Amo-te mas é insuportável, estar contigo e não poder dizer-te como me sinto, abraçar-te, compreender-te, tocar-te, trocar juras de amor eterno, beijar-te, apoiar-te, tornar-te feliz… Por isso tudo, acabou. Tudo isto não passa de um desejo platónico e inconsequente, um devaneio de quem não está completamente racional ou lógico. Percebo que no amor não haja racionalidade ou lógica, mas de uma forma fria podemos ver que isto estava destinado a não acontecer.
Tenho que desistir, seguir em frente para poder ser feliz. Como não o sou há muito tempo. E…Feliz…é acima de tudo o que eu quero, que sejas feliz. A tua felicidade e o mais importante nesta vida. E tu podes ser feliz sem mim, já o és, agora é a minha vez de o tentar ser, mas para isso tenho que desistir de lutar, dizer que acabou, fechar a porta que se manteve entreaberta durante tanto tempo.
Um dia desejei que fosses o meu futuro, quando hoje em dia apenas quero que sejas o meu passado. Uma memória, apesar de tudo feliz, com a qual eu possa recordar com um sorriso nos lábios e uma nostalgia inconsequente.
Gosto e sempre gostarei de ti, mas o futuro reserva-nos outras pessoas e a felicidade daí adjacente. Gosto de ti, mas esta é a despedida.”

Ele levantou a cabeça, o seu olhar encontrou o dela. Aquele olhar sereno que o acalmava, estava agora humedecido por lágrimas e transformado num olhar fraternal e de compaixão. Ela levantou a mão e acariciou a face dele. Ele agarrou na sua mão, beijou-a e deixou-a cair. Era o fim, o equivalente a deitar a toalha ao chão no boxe. Ele sabia que era para o seu melhor. Virou costas, e andou sem rumo ou razão, deixando quem um dia disse nunca abandonar, exausto de tanto lutar.


Sem comentários:

Enviar um comentário