Olho para mais um copo vazio. Em redor
uma mesa cheia de pessoas vazias. Entro em piloto automático, vagueando num mar
de nostalgias e frustrações. Penso no passado, no presente, no futuro. Olho
para algumas pessoas que tanto me diziam, e que agora não me dizem nada. Isto
deve-se a mudanças, que tão repentinamente entraram no meu mundo, como o transformaram
o meu ser numa nova Hiroshima tomada por chamas e gritos de desespero. E tal
como o barro é moldado, também nós pessoas o somos, e consequentemente eu sou
moldado no meio deste ambiente hostil criado por mim próprio na minha mente.
Interrompem a minha bad trip natural, para me perguntarem algo. Perguntaram-me
algo, mas sinceramente não sei o que. Podia ser sobre política, futebol ou
religião, o mais provável era que tenha sido algo sobre o meu círculo de
amigos, ou alguma baboseira de repercussões históricas para o nosso registo
criminal que eu ainda tenho inacabado. Provavelmente, acenei afirmativamente com a
cabeça dizendo uma expressão tão profunda como “hmm”. A minha atenção volta-se
para o copo vazio. Sinto um instinto de sobrevivência nem que seja pela minha
vida social, e volto ao bar para encher o copo e o meu corpo de uma substância que
faça a minha existência mais plausível, e todo e qualquer contacto humano numa
noite deprimente possível.
Alguns podem achar esta relação alcoólica
pouco saudável. Na verdade penso nesta relação como uma simbiose, eu deixo de
ficar sóbrio e de pensar no que não devia, e a vodka encontra em mim um porto
de abrigo em vez de acabarem no estômago de uns russos. Toda a gente ganha,
menos os russos que mantendo-se sóbrios têm que se lembrar constantemente que
Putin é o nome associado ao seu país.
Volto ao meu lugar no meio
daquela roda social, impávida e serena à minha saída e à minha chegada. Quer
dizer, voltava. O meu lugar foi ocupado por uma cara familiar. Sinto-me traído,
zangado por me terem trocado, vou explodir, vou mostrar que aquele lugar é meu….
Não, bebo o que tinha no copo. Sinto o calor a descer pela minha garganta,
levando a raiva com ele. Abro um sorriso, e digo que não há problema. Vou
buscar uma cadeira e sento-me, ficando desta vez mais afastado do centro da
roda. Parece que estou mais distante de todos. Se calhar o problema é que estou
novamente sóbrio de mais. Concentro-me no meu copo, depois noutro e outro. Não
vou sendo incomodado por ninguém daquela roda social, que continua impávida e
serena, enquanto eu faço um vaivém constante reabastecendo-me de álcool. Mas
cada vez que volto, fico mais longe do centro, e longe vou ficando. Foco-me
mais no copo, voltando sempre para um lugar mais longe do centro de tudo. Até que
um dia deixo de voltar á roda, e fico apenas eu e o meu copo. Tentando-me
esquecer de tudo, tentando não me lembrar de todas as mudanças que me
empurraram para aqui.
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