domingo, 23 de fevereiro de 2014

Copo vazio, copo cheio




Olho para mais um copo vazio. Em redor uma mesa cheia de pessoas vazias. Entro em piloto automático, vagueando num mar de nostalgias e frustrações. Penso no passado, no presente, no futuro. Olho para algumas pessoas que tanto me diziam, e que agora não me dizem nada. Isto deve-se a mudanças, que tão repentinamente entraram no meu mundo, como o transformaram o meu ser numa nova Hiroshima tomada por chamas e gritos de desespero. E tal como o barro é moldado, também nós pessoas o somos, e consequentemente eu sou moldado no meio deste ambiente hostil criado por mim próprio na minha mente. Interrompem a minha bad trip natural, para me perguntarem algo. Perguntaram-me algo, mas sinceramente não sei o que. Podia ser sobre política, futebol ou religião, o mais provável era que tenha sido algo sobre o meu círculo de amigos, ou alguma baboseira de repercussões históricas para o nosso registo criminal que eu ainda tenho inacabado. Provavelmente, acenei afirmativamente com a cabeça dizendo uma expressão tão profunda como “hmm”. A minha atenção volta-se para o copo vazio. Sinto um instinto de sobrevivência nem que seja pela minha vida social, e volto ao bar para encher o copo e o meu corpo de uma substância que faça a minha existência mais plausível, e todo e qualquer contacto humano numa noite deprimente possível. 

Alguns podem achar esta relação alcoólica pouco saudável. Na verdade penso nesta relação como uma simbiose, eu deixo de ficar sóbrio e de pensar no que não devia, e a vodka encontra em mim um porto de abrigo em vez de acabarem no estômago de uns russos. Toda a gente ganha, menos os russos que mantendo-se sóbrios têm que se lembrar constantemente que Putin é o nome associado ao seu país.

Volto ao meu lugar no meio daquela roda social, impávida e serena à minha saída e à minha chegada. Quer dizer, voltava. O meu lugar foi ocupado por uma cara familiar. Sinto-me traído, zangado por me terem trocado, vou explodir, vou mostrar que aquele lugar é meu…. Não, bebo o que tinha no copo. Sinto o calor a descer pela minha garganta, levando a raiva com ele. Abro um sorriso, e digo que não há problema. Vou buscar uma cadeira e sento-me, ficando desta vez mais afastado do centro da roda. Parece que estou mais distante de todos. Se calhar o problema é que estou novamente sóbrio de mais. Concentro-me no meu copo, depois noutro e outro. Não vou sendo incomodado por ninguém daquela roda social, que continua impávida e serena, enquanto eu faço um vaivém constante reabastecendo-me de álcool. Mas cada vez que volto, fico mais longe do centro, e longe vou ficando. Foco-me mais no copo, voltando sempre para um lugar mais longe do centro de tudo. Até que um dia deixo de voltar á roda, e fico apenas eu e o meu copo. Tentando-me esquecer de tudo, tentando não me lembrar de todas as mudanças que me empurraram para aqui.  

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