O sol de primavera encadeava-o.
Meia tarde, e ele sentado numa esplanada à espera. Num olhar feito de fora,
aquela era mais uma espera como tantas outras. Um encontro que está a ser posto
em causa na cabeça dele, por causa de tanto atraso. No entanto na cabeça nada
disso passava. E de um encontro nada teria. Ele esperava uma amiga sua, amiga
desde o secundário. Nada demais se passava entre eles sem ser amizade. Tanto
ele como ela se aconselhavam por entre encontros e desencontros amorosos. Ele
tentava se lembrar de quantas vezes ela já o avisara, de quantas vezes ela
esteve certa sobre ele vir a sair magoado, que a rapariga em questão não era
certa. Na verdade, ele estava feliz por aquela amizade resistir, já que tantas
não resistiram.
Ela chegou. Mais uma vez de um
olhar de fora ela era uma mulher perfeita para com quem muitos teriam um
encontro. Alta, esbelta, com aquele brilho no olhar, cabelo preto até a meio
das costas, curvas pelas quais já muito se apaixonaram. Ele, não se surpreendia
de ela ter namorado, de ser feliz ao lado de alguém. E ela merecia isso. Para
ele, ela não era apenas beleza, era personalidade e caracter forte num corpo de
mulher.
Ela sentou-se e um simples café
transformou-se em conversa. Falaram de tudo. Falaram dele, dos seus objectivos,
de nunca esmorecer que um dia ia dar tudo certo. De como estava a vida dela, o
trabalho, a promoção que ela iria ter.
Tudo estava a correr bem, até que
se tocou na relação dela com o namorado. Ela pareceu estranha. Ele sabia que
ela estava estranha, ele conhecia bem.
Ela pediu-lhe boleia para casa. Ele
acenou a cabeça firmemente. Sabia que se ela não queria falar, o melhor seria
não tocar no assunto. Entraram no carro. As conversas que podiam durar horas
transformaram-se num silêncio sepulcral. Ele sentindo-se constrangido, fez uma
piada sobre uma coisa qualquer, como era seu habito sempre que sentia alguém em
baixo. Ela soltou um sorriso nervoso.
Chegaram em frente a casa dela,
já era noite. Ele parou o carro, olhando para ela. E ela, olhava para ele. O
olhar dela tinha perdido o brilho cativante que parecia sempre ter. Eles
simplesmente ficaram naquela troca de olhares, sem trocar uma palavra por
minutos. Existem momentos na vida em que o silencio fala mais por nós do que as
nossas próprias palavras. E se dela vinha um olhar pesado e triste, dele vinha
um olhar de compaixão e apoio. E de repente o silêncio foi cortado:
-Ele traiu-me.- Disse ela
começando a chorar.
-O meu namorado traiu-me. Eu sei
que sim, mais que uma vez.- Disse ela com a voz embargada, no meio do choro.
Ele não conseguia responder.
Ficara imobilizado como tanta vez o fica quando uma rapariga bonita chora ao pé
dele. Ele não sabia o que fazer, apenas olhou para ela com um olhar pesado.
-Uma amiga minha viu agarrado a
outra. E agora sei, que ele me trai.- continuou ela.
Ele agarrou na cabeça dela com
carinho. Com os dedos limpou as lágrimas que lhe desciam pelo seu rosto e
disse:
- Não sei o que esse rapaz tem na
cabeça mas não te merece de maneira nenhuma. Tem a perfeição em casa, e sai com
outras? Ele não sabe a sorte que tem. Tu és bonita, simpática e atraente. Tens
uma personalidade espectacular como hoje já não se vê, tens um caracter e uma
força inesgotáveis. E se ele não vê isso é porque é cego. Tu és tudo o que um
homem pode querer, e eu não preciso de conhecer as pegas com quem ele se dá
para saber que és melhor em todos os aspectos. Tu és perfe…
Nesse mesmo instante ele foi
interrompido com um beijo dela. Sentir os seus lábios nos dele o fez derreter.
Sucumbir a um desejo que ele nunca tivera, beijá-la. Eles pararam de se beijar,
olharam um para o outro, mas aquele desejo era mais forte. Os beijos
continuaram. Ela tirou-lhe o casaco. Ele tirou o dela. As mãos dele
percorriam-lhe o corpo, desejando o que nunca desejou. As mãos frias dela no
pescoço dele faziam o arrepiar. Arrepios, sentia ela, sempre que os lábios dele
encontravam o seu pescoço.
A roupa foi sumindo à medida que
o desejo subia. Ele não estava racional ou consciente. O desejo era crescente,
incontrolável. Ele não sabia como era possível ou concebível ter tanto desejo
por alguém por quem sempre sentiu apenas amizade.
Pensamento
interrompido pelas unhas dela nas suas costas. As suas mãos desapertavam o
soutien, a boca desceu beijando-lhe o peito agora nu. Ele rapidamente puxou o
seu banco todo para trás, com a mesma força com que a seguir a puxou para o seu
colo. Sentiu as mãos delas a despertarem as calças, instintivamente ele fez o
mesmo a ela. Calças fora, num carro preenchido pelos seus corpos e as suas
roupas espalhadas. Ele beijou-a mordendo-lhe o lábio, agarrando-lhe suavemente
o pescoço. Olharam nos olhos um do outro. O desejo espelhado naqueles olhos
castanhos deixavam-no fora de si. E com a mesma velocidade com que já toda a
roupa tinha sida tirada, as ultima peças também o foram.
Corpo com corpo, aquele desejo
incontrolável. Vidros embaciados, numa aventura em que nenhum dos dois tinha
pensado. Os olhares trocados, os gemidos feitos como sussurros ao ouvido. E no
fim, tudo isto era uma traição. Ela sabia-o, ele também. No entanto, não era o
sentimento de culpa que invadia o olhar de ambos. Naquele olhar residia o
desejo… e a esperança num futuro que poderia ser escrito a dois…
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