domingo, 16 de março de 2014

Sentado na rua






“Nada, na verdade, faz muito sentido hoje em dia”- disse ele despreocupado para o vazio.


Ele estava sentado num banco de uma qualquer rua, desta cidade vazia. O bom de ter conversas sozinho é que ninguém te irá contrariar, não terás de ouvir nenhuma resposta irónica ou uma ideia tresloucada. São estas conversas, muitas vezes apenas mentais em que as pessoas se dividem em duas e trocam pensamentos confusos, que te fazem pensar ou apenas divagar no vazio. Aquelas trips que fazes sem fumar ou beber nada….


E ali estava ele, impávido e sereno, sentado no banco a olhar em seu redor. Via as pessoas que passavam, as crianças que brincavam na rua, as casas, as lojas. 


Era uma rua com algumas lojas e cafés, umas casas de estilo rústico, perto do centro da cidade. A rua noutros tempos, era movimentada, cheia de lojas e pessoas. Noutros tempos, quando ele era mais pequeno, uma criança inocente. Hoje em dia, a rua tinha lojas fechadas, menos pessoas. Hoje em dia, ele era considerado um homem. 


Ele centrava-se cada vez mais nas lojas vazias, nas casas defuntas, vazias de pessoas, repletas de recordações.


“Como é que as coisas podem mudar tanto em tão pouco tempo?”- pensou ele.


O pensamento será comum à maior parte dos mortais. Mais um pensamento inconsequente, resultado de mais um devaneio. E ele continuava…


“Tantas construções sem um propósito útil… Tanto lugar vazio, enquanto as pessoas constroem longe daqui…”


O seu raciocínio estava confuso. Ele na verdade, não percebia muito bem qual o propósito de tanta casa e loja vazia. 


Ele permaneceu sentado, a pensar em tudo aquilo. O dia escureceu, os últimos raios de sol do dia batiam no seu corpo imóvel. A verdade é que aquelas casas e aquelas lojas foram construídas com um propósito, um interesse. Assim que esse propósito e esse interesse desvaneceram, as lojas e as casas tornaram-se apenas recordações da grandeza que um dia alcançaram. Como que tudo aquilo atingiu o prazo de validar e foi deixado de lado. O seu propósito e interesse desapareceram, agora limitam-se a existir. 


Tal como essas casas e essas lojas, também relações entre pessoas enfrentam o mesmo. O propósito e o interesse desapareceram há muito. Mantém-se uma existência moribunda, tapada e ofuscada por novas relações, apenas por inoperância ou incapacidade de fechar mais um capitulo da nossa vida. 


Já era noite, a lua brilhava bem alto. Ele olhava em redor. A rua agora estava deserta. Todas as lojas fechadas. Todas as casas desocupadas. A maresia caia com doce travo a nostalgia. Ele percebeu que era a hora de deixar aquela rua. De procurar uma nova, com novas casas, lojas e pessoas. E saiu sem rumo, nem direcção. Apenas à procura de uma nova rua.

Sem comentários:

Enviar um comentário