“Nada, na verdade, faz muito
sentido hoje em dia”- disse ele despreocupado para o vazio.
Ele estava sentado num banco de
uma qualquer rua, desta cidade vazia. O bom de ter conversas sozinho é que
ninguém te irá contrariar, não terás de ouvir nenhuma resposta irónica ou uma
ideia tresloucada. São estas conversas, muitas vezes apenas mentais em que as
pessoas se dividem em duas e trocam pensamentos confusos, que te fazem pensar
ou apenas divagar no vazio. Aquelas trips que fazes sem fumar ou beber nada….
E ali estava ele, impávido e
sereno, sentado no banco a olhar em seu redor. Via as pessoas que passavam, as
crianças que brincavam na rua, as casas, as lojas.
Era uma rua com algumas lojas e
cafés, umas casas de estilo rústico, perto do centro da cidade. A rua noutros
tempos, era movimentada, cheia de lojas e pessoas. Noutros tempos, quando ele
era mais pequeno, uma criança inocente. Hoje em dia, a rua tinha lojas
fechadas, menos pessoas. Hoje em dia, ele era considerado um homem.
Ele centrava-se cada vez mais nas
lojas vazias, nas casas defuntas, vazias de pessoas, repletas de recordações.
“Como é que as coisas podem mudar
tanto em tão pouco tempo?”- pensou ele.
O pensamento será comum à maior
parte dos mortais. Mais um pensamento inconsequente, resultado de mais um
devaneio. E ele continuava…
“Tantas construções sem um
propósito útil… Tanto lugar vazio, enquanto as pessoas constroem longe daqui…”
O seu raciocínio estava confuso.
Ele na verdade, não percebia muito bem qual o propósito de tanta casa e loja
vazia.
Ele permaneceu sentado, a pensar
em tudo aquilo. O dia escureceu, os últimos raios de sol do dia batiam no seu
corpo imóvel. A verdade é que aquelas casas e aquelas lojas foram construídas
com um propósito, um interesse. Assim que esse propósito e esse interesse
desvaneceram, as lojas e as casas tornaram-se apenas recordações da grandeza
que um dia alcançaram. Como que tudo aquilo atingiu o prazo de validar e foi
deixado de lado. O seu propósito e interesse desapareceram, agora limitam-se a
existir.
Tal como essas casas e essas
lojas, também relações entre pessoas enfrentam o mesmo. O propósito e o
interesse desapareceram há muito. Mantém-se uma existência moribunda, tapada e
ofuscada por novas relações, apenas por inoperância ou incapacidade de fechar
mais um capitulo da nossa vida.
Já era noite, a lua brilhava bem
alto. Ele olhava em redor. A rua agora estava deserta. Todas as lojas fechadas.
Todas as casas desocupadas. A maresia caia com doce travo a nostalgia. Ele
percebeu que era a hora de deixar aquela rua. De procurar uma nova, com novas
casas, lojas e pessoas. E saiu sem rumo, nem direcção. Apenas à procura de uma
nova rua.
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