quarta-feira, 19 de março de 2014

Destino... Em universos parelelos




O convite chegou por mensagem. Sair á noite era o plano de um amigo meu. Um plano que envolvia um grupo misto de amigos meus com desconhecidos. Dei a confirmação, e desliguei o telemóvel. Estava cansado do trabalho, precisava de descansar e não ser incomodado, mas se não ia ao Urban, o melhor era sair para não pensar nisso. 

As noites de sábado já não tinham o encanto de outros tempos. Já não havia aquele entusiasmo, já não me divertia. O meu grupo de amigos estava partido, diluído num novo mar de expectativas e conecções impostas pela universidade. Gostava de voltar a ter uma daquelas noites em que todos nós falávamos por horas, ríamo-nos da nossa estupidez, e aumentávamos o número de histórias que temos para contar aos nossos futuros filhos e netos.

Acordei sobressaltado. Já era de noite, simplesmente adormeci no meio de tanto pensamento confuso. Despachei-me o mais rápido possível. Entre banho, jantar e arranjar-me passou uma hora. O telemóvel tocava. Estava atrasado, e um dos meus poucos amigos que sentia a minha falta fez-me apressar. 

Cheguei ao local combinado. Logo ali senti a nostalgia. O grupo estava dispersado. Um olhar mais imparcial, via vários grupos e não apenas um. Logo pararam a minha bad trip, dois amigos meus chegaram ao pé de mim com uma garrafa de vodka. Falamos, bebemos mas logo notei em algumas caras novas ali por perto. Um deles, disse-me que tinha sido ele a convida-la, que era o seu novo interesse. Naquele momento senti aquele sentimento de alegria, aquele sentimento que todos os amigos sentem quando um amigo se está a dar bem no campo amoroso. 

A noite ia passando rápido, com a mesma rapidez com que eu fazia desaparecer copos, e ajudava a raptar garrafas. Entramos num bar. As paredes podiam ser azuis, verdes ou cor-de-rosa, naquele estado já não reparo nisso. Reparo sim que o nosso grupo é muito mais pequeno do que no início. Éramos poucos mas bons dizia eu, enquanto reparei que estava a ser observado. Era aquela rapariga nova. Olhava para mim sem disfarçar. Eu não sabia muito bem o que fazer. Virei costas e comecei a dançar de frente para uns amigos meus. Passaram segundos, minutos ou horas. Bêbedo, o tempo é tão efémero como os copos que já morreram nas minhas mãos.

Olho em redor e não vejo muita gente do grupo. Olho para fora do bar vejo dois amigos a conversarem. Infelizmente, não vejo um deles acompanhados pela rapariga nova. Volto a concentrar me no bar, estou de copo vazio. Quando ia a dirigir me para o balcão, senti uma mão nas costas a puxar-me. Olho e era ela. Aquela rapariga. Ela chegou-se ao pé de mim e sussurrou-me “não me deixes aqui sozinha”. A voz dela era doce, e eu não sabia bem que fazer. Devia ir chamar o meu amigo, mas por outro lado não havia mal em fazer lhe companhia.

Aquele momento de silêncio constrangedor foi rapidamente quebrado quando começamos a dançar. A distância entre nós ia diminuindo, e começava a sentir o corpo dela junto do meu. De forma errada começava a pensar no que não devia. O álcool, aquele toque, faziam-me esquecer o pensamento. As minhas mãos começaram a descer, agarrei-a pela cintura. E dai para a frente só me lembro de cada vez estarmos mais próximos de um canto. De nos beijarmos, de percorrer o corpo dela com as minhas mãos. Os arrepios que ela sentia quando a beijava no pescoço, os que eu sentia quando ela me arranhava as costas. 

De repente tudo parou. Olhei para ela, olhar vidrado. Segui o seu olhar, e vi o meu amigo a chorar. Ao seu lado um amigo comum a olhar em sinal de reprovação. Ele saiu sem dizer nada. Corri para fora do bar, desesperado para o tentar alcançar. Corria com afinco, não sentia o cansaço, nem o álcool dentro de mim. Ele simplesmente desapareceu. Andei pela cidade sem rumo. A pensar em toda a porcaria que fiz. Sentia me fraco, desiludido e sem forças para lutar. Magoei quem nunca quis magoar. Sentei-me numa ponte sobre o pequeno rio, a pensar no que fiz. E o meu pensamento estava cada vez mais confuso. Desisti de me equilibrar, deixei-me cair exausto de tanto lutar. Senti a água gélida a bater no meu corpo. Só pensava porque é que não sai para o Urban com os rapazes.




A noite ainda era uma criança, e nós já andávamos sem rumo de garrafa na mão. Percorremos todos os bares daquela zona, mas nenhum nos conseguiu convencer. Um de nós sugeriu irmos para o Urban. Chegamos, e confusão era enorme. Sábado á noite, fila cheia de adolescentes. A vontade de desistir daquele plano esmorece com a quantidade de raparigas bonitas que vimos. Rapazes bêbedos têm tendência a reparar e a exagerar nos comentários sobre raparigas.

No meio da espera falamos um pouco de tudo, naqueles momentos de estupidez apenas interrompidos pelo silêncio sepulcral que fazemos quando passa alguma rapariga mais produzida, mais despida. Entramos. Missão cumprida. Olho em redor e logo vi que os perdi de vista. Sinto a mão leve, dirijo me ao bar. 

De copo na mão, olho à minha volta. No meio de uma multidão, a solidão sente-se mais. Esvazio o copo, sinto o calor na garganta. Esqueço tudo isso, só me quero divertir. Mesmo que seja sozinho. No meio de mais uma crise existencial, noto numa rapariga. Morena, cabelo comprido, cara bonita. Ela notou que eu estava a olhar, sorriu para mim e continuou a dançar. Não sei se avançar, ou apenas ali ficar. Nunca percebi as raparigas, quanto mais os seus sinais.

Do nada apareceram os meus amigos, eufóricos, em êxtase. A energia era contagiante. Eles viram logo qual era o meu interesse no meio daquela multidão. Incentivam-me a tentar. Acabo com a vodka do meu copo. Digo que vou a casa de banho e que depois venho disposto a arriscar. 

Viagem do inferno. A casa de banho mais me parecia ter sido construida na sibéria, tal a quantidade de bêbedos que entornaram vodka em mim. Maratona de esforço para quem está embriagado. Despachei-me e voltei para o balcão do bar. Não vejo ninguém à primeira vista, varro com o olhar toda aquela zona. Lá está ela…. Mas quem é aquele gajo que está com ela? Foco o olhar, quem está com ela é um dos meus amigos.  

Fiquei sóbrio naquele mesmo instante. Sentia o sangue a ferver. Fechei o punho sobre o balcão. Furioso, bêbedo, fora de mim. Flashbacks invadiram a minha mente. Vejo murros, oiço gritos de muita gente. Sinto o corpo pesado, alguém a agarrar-me. Volto a mim. Estou a ser arrastado, olho em redor e vejo o meu amigo no chão, sinto o sangue dele na minha mão. 

Saiu do meio da multidão, triste, magoado em quem confiei. Sozinho, sento-me na rua, começo a chorar. Penso “se eu soubesse não tinha saído da minha cidade”  

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